A chuva e a mudança que queremos

Por Maria Cristina Dias*
Sempre associei coisas boas à chuva. O cheirinho da terra molhada quando recebe os primeiros pingos, mate quente (o chá, please) com bolinho de chuva à tarde, o barulho no telhado e até os banhos de chuva na infância. O ar límpido depois de um temporal, a delícia de respirar fundo, devagar. Dormir com o barulho da chuvinha lá fora é tudo de bom.
Chuva sempre me remeteu a frescor,  à vida. Depois de um temporal, a passarinhada faz um estardalhaço, fica alvoraçada. Voa de árvore em árvore, empolgada – um prato cheio para quem, como eu, não se cansa de observar esta movimentação.
Uma vez uma loja deu de brinde aos clientes um sachê com cheirinho de terra molhada. Confesso que guardei aquele pacotinho com cuidado muitas vezes o coloquei em cima da minha mesa nos dias quentes. Durou anos. Por fim, acho que nem tinha mais cheiro, mas eu o mantinha assim mesmo simplesmente porque gostava.
Quando me mudei para Joinville, essa relação com a chuva começou a mudar. Cheguei na cidade no final de 1994. Lembro que em janeiro de 1995 eu escrevia para a minha mãe (sim, naquela época, século passado, ainda escrevíamos cartas e as enviávamos pelos Correios) que em Joinville chovia todo dia, o dia todo. Naquele ano o volume de água foi tão grande que estourou a barragem de Pirabeiraba, deixando o distrito e bairros próximos debaixo d´água. Literalmente.
Um ano depois, já repórter do Diário Catarinense, fui encarregada de fazer uma matéria lembrando o primeiro aniversário daquela data trágica. Ao pegar os relatórios com os índices pluviométricos, me dei conta de que durante todo o mês de janeiro só não choveu em três dias. A minha percepção de que “chovia o dia todo, todo dia” estava corretíssima.
Os temporais, os alagamentos e o drama das pessoas que tinham suas casas invadidas pela água passaram a fazer parte do dia a dia dessa repórter que nunca hesitou em sujar os tênis de lama para conseguir uma boa história. Hoje, o meu foco como jornalista mudou e não vou mais atrás desses relatos. Acompanho a cobertura dos colegas e as postagens nas redes sociais com o coração apertado, pensando na sensação de impotência e desespero das pessoas – tantas pessoas, cada vez mais gente – que veem as poucas coisas que têm serem destruídas de uma hora para a outra.
A chuva batendo na vidraça há muito tempo deixou de ser um momento de leveza. Ao contrário, hoje é motivo de apreensão. Mesmo morando em um local que não enche, pelo menos até hoje, e em um prédio (se chegar água no terceiro andar, teremos que chamar Noé e sua arca), a chegada das nuvens carregadas e os temporais me deixam em alerta, com medo do que está por vir. Medo pelo outro.
Com certeza, não sou a única. Quem mora em Joinville, Blumenau e tantas outras cidades que cresceram às margens dos rios sabe bem do que estou falando e, tenho certeza, sente a mesma apreensão – mesmo quando não é diretamente atingido.
Mas, bem, se a chuva é inevitável – e muitas vezes os alagamentos também – os transtornos e prejuízos podem ser reduzidos com um pouco mais de consciência. Sim, o poder público tem que fazer a sua parte e deixa muito a desejar. Mas todos nós temos a nossa parcela de responsabilidade nisso.
Achamos bacana ter a rua asfaltada, mas esquecemos que solo impermeabilizado não absorve a água que cai dos céus. Essa água vai para algum lugar – para os rios assoreados e sem mata ciliar, para as ruas com sua drenagem mal mantida, para as nossas casas.
E o lixo? Tem um post que circula nas redes sociais que diz que “não adianta jogar fora, porque não existe fora”. Mas a gente consome e descarta como se não houvesse um mundo lá fora. São só dois exemplos simples e rasos, sem levar em conta muitos outros fatores que envolvem a questão. Poderíamos escrever tratados sobre o assunto, como muitos escrevem.
Sim, há muitos problemas na manutenção das cidades – e isso a gente tenta resolver nas eleições, com a escolha dos nossos governantes. E se não der certo, tentamos de novo, dentro do processo democrático. O processo de ocupação das cidades, visto com a distância que o tempo permite, também tem muitos equívocos – sabemos bem disso e são cada vez mais urgentes as ações para tentar contornar essa situação.
Mas, na prática, isso escapa das minhas mãos. Então, a reflexão que faço é como cada um pode, com suas ações no dia a dia, fazer algo para tentar melhorar a situação. Porque se tem uma coisa que aprendi nessa vidinha é que a gente não consegue mudar o outro. E nem o mundo (pelo menos, não sozinho). Mas cada um consegue mudar a si próprio, as próprias atitudes. E isso pode fazer a diferença.
Foto: Mauro Artur Schlieck

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