A descoberta dos rios

Por Maria Cristina Dias*
Quando eu era pequena, bem pequena, achava que os rios só existiam nos livros. Olhava as imagens de rios caudalosos, cheios de vida – literalmente – como quem vê figuras de dinossauros ou de outros animais extintos. Algo impressionante e distante, meio irreal.
Na minha realidade urbana, existiam alguns canais por onde a água passava já devidamente contida e reduzida, entre ruas repletas de carros e pedestres apressados. Depois de um tempo, nem isso, pois os canais foram sendo fechados e o que mais se aproximava de rios desapareceu por completo debaixo da terra.
Aos poucos fui descobrindo que em alguns lugares, os rios ainda existiam, mas era preciso ir atrás deles em lugares mais distantes.
Quando saía do Rio viajava para Minas Gerais para visitar as tias de meu pai, cruzava o interior com o nariz grudado no vidro do ônibus para ver os rios que encontrava no caminho. Ali, sim, tinha rios de verdade, com correnteza que formava espuma quando batia nas pedras, águas barrentas e misteriosas, que ocultavam o universo que existia ali embaixo.
Mais que revelar os rios que eu sequer acreditava que existiam, aquelas viagens abriam as infinitas possibilidades do desconhecido. Elas traziam uma visão para fora do meu mundo e eu conseguia perceber isso com uma clareza que me fascinava – tá, amedrontava, também, é verdade, mas o frio no estômago faz parte da experiência.
De uma forma muito concreta, elas me faziam ver que havia muito mais coisas no mundo do que eu podia imaginar, do que os livros revelavam, do que a TV mostrava, do que a escola ensinava. Para uma menina que devia ter lá seus cinco anos, ou talvez menos, estas descobertas eram impactantes.
Assim, muito cedo passei a desejar a viagem tanto quanto desejava o destino final. Queria chegar a Minas, sentir o frio na pele que eu já gostava naquela época, dormir com um cobertor pesado (algo inusitado para uma carioca), provar todos os queijos que tinha direito, comer a comida caseira e os doces feitos pelas minhas tias-avós. Mas, principalmente, queria olhar pela janela do ônibus, decorar a paisagem e, às vezes, me surpreender com o novo.
Na época não percebia isso, lógico, mas a descoberta dos rios naquelas viagens me fazia questionar e romper com as minhas certezas. Algo que marcou profundamente a minha forma de pensar e agir por toda a vida. E segue até hoje nesse Olhar Passarinho.
*Jornalista

1 Comentário

  1. João Borges disse:

    As descobertas e redescobertas são fascinantes. Tanto pelo desconhecido que aguarda o desbravador, quanto pelas experiências que estás nos reservam. Não há quem tire o valor disso.
    Maravilhoso texto, Maria Cristina!

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