A geração smartphone e o longo caminho para a vida adulta 

Por Maria Cristina Dias*
Uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual de San Diego, nos EUA, mostrou o que cada pai de adolescente sabe bem: que essa geração smartphone está amadurecendo mais lentamente e está menos preparada para a vida adulta. A pesquisa investigou mais de 11 mil jovens nascidos depois de 1995 e deu origem a um livro. “Esses jovens cresceram em um ambiente mais seguro e se expõem menos a situações de risco. Mas, por outro lado, chegam à universidade e ao mundo do trabalho com menos experiências, mais dependentes e com dificuldade de tomar decisões”, explicou a psicóloga autora da pesquisa, em uma entrevista.
Com certeza, esses jovens são capazes de descobrir rapidamente como vencer as etapas mais difíceis de um jogo online e conseguem navegar por novos aplicativos de forma praticamente instintiva. Mas ao mesmo tempo esbarram em ações simples do dia a dia, como pegar um ônibus, organizar o tempo para não chegar atrasado à escola ou lembrar que tem que comprar pão para tomar o café – não, o pão não se materializa na mesa na hora certa, é preciso que alguém vá à padaria antes para buscá-lo.
Quem de vocês já não se pegou falando para o filho: “quando eu tinha a sua idade, eu já fazia isso, isso e isso”? É o mantra da mãe chata.
Chatice, conflitos e generalizações à parte, me assusta perceber esse despreparo – que, na verdade, é um grande paradoxo.
Teoricamente, nunca estes jovens estiveram tão bem preparados para os desafios que possam se apresentar. Falam uma segunda língua (e muitas vezes uma terceira) com naturalidade, muitos já visitaram outros países e têm uma facilidade para entender e respeitar as diferenças culturais e individuais que nos caracterizam. Têm acesso à uma quantidade de informações imensa, em tempo real. O conhecimento gerado no mundo está online para quem quiser saber. Não é preciso nem digitar… é só pousar o dedo na tela que as informações jorram aos borbotões.
Falta, porém, saber o que fazer com tudo isso. Falta um amadurecimento emocional que não se consegue no mundo virtual nem na vida protegida que oferecemos para eles.
Protegemos, protegemos, protegemos. Filhos viraram cristais, que não podem cair no chão, se machucar ou ser contrariados. Tem tudo a tempo e à hora e não precisam lutar pelo que querem. Somos pais legais.
Eles não se expõem a menos situações de risco, como aponta a pesquisa, por maturidade. Não, eles se arriscam menos porque não estão acostumados a se arriscar. Isso serve tanto para para as coisas ruins quanto para as coisas positivas.
Lembro da minha adolescência e da ânsia de liberdade que tinha. Sonhava em ser dona do próprio nariz, estudar na universidade que queria, ter o meu apartamento e, a despeito do meu jeito quieto, devo ter enlouquecido a minha mãe com os arroubos de independência que me levaram bem cedo para longe da casa dela.
Nada contra ser legal com o filho. Mas um pouco de exposição ao mundo real e um empurrão de vez em quando não faz mal a ninguém.
Sim, temos frustrações, precisamos tomar decisões difíceis e encontrar soluções para os desafios e problemas que se apresentam. Os filhos também.
Temos limites o tempo todo. Por que não dar a eles? É necessário, é saudável.
Estou longe de ser um modelo de mãe – minha tendência é proteger o rebento de todo infortúnio e virar uma leoa se alguém encosta nele.
Mas lá em casa tive que estabelecer umas regras para tentar colocar a tecnologia em suas devidas proporções e empurrar o filho para a vida –  regras muito mal vistas pelo dito cujo, diga-se de passagem. Ele tem hora de estudar. E na hora de estudar o celular tem de ficar em outro cômodo. Não, ele não pode ficar ao alcance da mão, sob pena do olhar ficar preso à telinha a tarde inteira. Tá certo, que ele dribla isso estudando o que gosta e deixando de lado o que detesta (mas precisa). Mas enfim…
De noite, antes de dormir, me desculpe, mas tem que desconectar. Pegue um livro, por favor.
De vez em quando dou uma de louca e mando ele para fora desempoeirar a bicicleta – e que não volte antes de uma hora de pedalada, pois a megera aqui o coloca para fora novamente. Ah, e arrume uma solução, dê um jeito, mas faça o que tem que fazer. Tenho a certeza de que enquanto eu solucionar todos os problemas, ele nunca vai se mexer e procurar os seus próprios caminhos.
Mas mesmo assim, tenho a consciência de que a entrada na vida adulta está ocorrendo cada vez mais tarde e que essa maturidade ainda vai demorar para essa geração, de um modo geral  faz parte dos nossos dias.
*Jornalista

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