A menina que atravessava a rua

Por Maria Cristina Dias*

Ela não devia ter mais que cinco anos e eu não faço ideia de qual era o seu nome. Mas vê-la trouxe um ar fresco ao meu dia e contribuiu para empurrar as nuvens pesadas que o rondavam.

Parei no sinal vermelho com aquela sensação de que estava para perder os 30 segundos mais importantes da minha vida.

Enquanto olhava impaciente para frente, a espera da luz verde que me permitira retomar o caminho, uma garotinha atravessou a rua.

A mãe a puxava pela mão e, certamente, tinha pressa. Mas ela… bem ela não estava nem aí para a pressa de quem estava a sua volta.

Com suas perninhas curtas saltitava na faixa de pedestre tomando o cuidado extremo de só pisar nas faixas brancas. Às vezes tinha que dar dois passos para se manter no seu objetivo.

Mas não desistia. E de saltite em saltite venceu seu obstáculo sem cair na suprema heresia de pisar no intervalo das faixas.

O sinal abriu e fui embora. Não sem antes lançar um último olhar para vê-la no canteiro central da avenida, já se preparando para mais uma jornada rumo ao outro lado da pista.

Houve um tempo em que podíamos andar na rua escolhendo o padrão de caminhada, escolhendo onde pisar como se isso fosse a coisa mais importante da vida. E naquele momento era.

Pisar nas poças de água da chuva sem se preocupar se os tênis iam ficar molhados – sim, eles iam ficar encharcados e talvez a gente até pegasse um resfriado. Mas e daí?

Ou sair por aí, levados por uma mão segura, sem se preocupar com mais nada que não fosse as pedrinhas do caminho.

Mas a gente cresce e incorpora o padrão adulto de ser.

Tem que ser responsável, chegar na hora certa aos compromissos, pagar as contas, comer comida saudável, controlar o colesterol, o peso e as emoções.

Não pode fazer loucuras e muitas vezes tem que deixar o coração de lado e ser somente racional.

Onde vai parar o prazer de tomar sorvete, lambuzar os dedos e tentar limpá-los  com a língua?

Cadê a iniciativa de ficar debaixo da calha da casa durante a chuvarada e sentir a água fria encharcando as roupas e percorrendo o corpo?

Onde vai parar o impulso de se jogar no sofá e ler gibi a tarde toda? Ou de roubar a lata de leite condensado da casa da avó e se acabar de beber o conteúdo açucarado?

Talvez tenha ficado do lado de lá do sinaleiro, na menina que pisava nas faixas brancas, enquanto aceleramos o carro para chegar mais rápido nas nossas obrigações.

*Jornalista

1 Comentário

  1. Vital Poffo disse:

    Parabéns, Maria Cristina, pela excelente crônica! Sou seu fã. Um grande abraço.

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