A moça que esqueceu como sorrir

Por Maria Cristina Dias*

Um dia, me dei conta de que ela não sabia sorrir. Estava parada conversando com um grupo de amigos em comum, alguém falou um gracejo e ela até tentou esboçar um sorriso. O que se viu, porém, foi algo distante da leveza esperada naquele momento. O rosto foi tomado por um esgar, uma contração, sei lá… algo indefinido que expôs para essa voyer do mundo uma infinita tristeza. A tristeza que, certamente, morava ali e as pessoas a seu redor – apressadas – sequer percebiam.

E eu, que sorrio até quando a tristeza passa pela minha alma, me peguei conjecturando sobre quando e como alguém esquece de sorrir.

Porém, sim, há quem esqueça. É só olhar em volta.

Somos rápidos em julgar os outros e mais rápidos ainda em condenar e rotular a quem não conhecemos – e também a quem temos a ilusão de conhecer. Mas as pessoas guardam dentro de si vivências e sentimentos que nem imaginamos e que vem à tona quando menos se espera para nos mostrar que não dá para julgar pela superfície. Simplesmente não dá para julgar.

Meu avô Samuel, na sua sabedoria e simplicidade, dizia que para conhecer alguém era preciso comer com ela um saco de feijão. Pelo menos era assim que eu entendia na época. Hoje imagino que se referia a uma saca, que era como ele comprava o feijão nas antigas vendas. Homem do mar, acostumado a passar longas temporadas fora de casa, em espaços confinados e em situações de estresse das quais só fui me dar conta muito tempo depois de sua morte, ele ouvia mais que falava. E observava.

O tempo me mostrou que uma saca de feijão ainda é muita pouco para conhecer alguém. Em algumas situações, décadas partilhando a mesa e os dias não são o suficiente. Em outras, nem a vida toda.

Confesso que perceber que aquela pessoa não sabia mais sorrir foi algo chocante. Dar de cara com o vazio, com a dor alheia sempre é. Encarar as próprias dores, então… com certeza é bem pior.

Hoje, não sei mais por ela anda. Saiu por aí, sei lá para onde, com os lábios crispados e o riso perdido em algum lugar da alma. E eu? Bem, eu acho que tenho que comprar algumas sacas de feijão.

* Jornalista

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *