Amar é conceder liberdade

Por Nanci Hass da Cruz*

 

(Crédito: Divulgação)

 

É necessário iniciar dizendo que o amor é mistério.  Jung afirmou:

“Tanto minha experiência médica como minha vida pessoal colocaram-me constantemente diante do mistério do amor e nunca fui capaz de dar-lhe uma resposta válida” (Jung, 1975, 305).

O fato de não haver uma resposta válida pode significar que muitas respostas são possíveis e válidas. Assim, não tentarei definir ou conceituar de forma estrita, mas pensar no amor como um fenômeno, que se manifesta, que percebemos, mas que não se dobra à linguagem objetiva.

O amor para a Psicologia Analítica é um grande impulsionador do processo de individuação. Por meio dele há o encontro com o outro, que nos transporta para uma dimensão mais profunda de nós mesmos. Por essa razão o amor é pessoal, pois nos impulsiona a nos conhecermos e a buscarmos autonomia. E se quero de verdade ter o controle da minha vida abro mão de querer ter o controle de outras tantas vidas, seja  de quem for. Essa é uma das faces do amor. Conceder a liberdade, a autonomia a si próprio e ao outro, pois sem amor, sem autonomia, sem liberdade não existe indivíduo.

Já dizia Carl Gustav Jung que o contrário do amor é o poder. O contrário de amar é querer controlar o outro; é tirar-lhe a liberdade para que ele não seja mais quem é e não faça mais o que quer. Muitas relações afetivas, sejam amorosas ou não, não são baseadas no amor. São baseadas no poder. No controle que o mais velho, mais forte, mais sábio, mais qualquer coisa tem pelo outro que é menos qualquer coisa. Quanto mais amor, menos poder. Quanto mais poder, menos amor.

“Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro.” (Jung)

Quanto mais alguém se apodera de outra pessoa mais a impede de ser um legítimo outro. Ela perderá identidade, individualidade e vida, moldando-se a padrões que não são os seus. É difícil que aí haja amor.

Embora os relacionamentos aconteçam em nome do amor, o poder tem ocupado uma parte central, às vezes em situações simples e em outras de não permitir que o parceiro tome decisões, emita opiniões.

Pessoas que tem aprendido que é preciso ter para ser feliz acreditam que o outro também é objeto. O controle sobre este objeto faz parte da lista de conquistas. Muitas vezes queremos que o outro satisfaça as nossas expectativas, nossas vontades. Com relação à dominância, o objetivo real não é promover um bem-estar do casal e, sim, promover um bem-estar pessoal, acreditando que o parceiro está sob seu controle/domínio.

Infelizmente, confundimos muito as relações de poder com amor, nos colocamos numa posição de domínio que tende sempre a degradar a outra parte. Dessa forma, a relação não se pauta mais na admiração e no companheirismo. As pessoas envolvidas nesse tipo de relacionamento ficam preocupadas em atacar a autonomia do outro.

É de extrema importância, caso um casal chegue nesta situação, parar por alguns momentos e refletir, sendo importante uma ajuda profissional de um arteterapeuta.

Jung falou do amor como um caminho para a individuação, como um desejo de tornar-se si mesmo, ou seja, atender ao instinto de individuação. É um processo de desenvolvimento que começa desde que nascemos e se estende até nossa morte.

Jung descreve a individuação como “torna-se si mesmo”, e este processo de se tornar quem se é, é em si um processo amoroso, um processo de integração, de honestidade e consideração profunda consigo mesmo e com a realidade circundante, isto é, com os outros.

Ele abre uma reflexão de como a liberdade e a necessidade estão inseparavelmente entrelaçadas. Então liberdade não é necessariamente fazer o que se quer, mas fazer o que tem que ser feito, de acordo com seu chamado. Mas para isso é preciso ter certa autonomia e medida de controle sobre a consciência.

Achamos que as limitações da liberdade vêm somente de fora, da sociedade e de regulamentações externas, mas é possível dizer que somos tão escravos da nossa própria estrutura interna quanto da autoridade externa. Isso normalmente acaba sendo percebido somente na segunda metade da vida, quando pode ocorrer uma consciência cada vez mais nítida de que somos nossos piores inimigos, os mais implacáveis críticos e os que mais exigimos de nós próprios em nosso trabalho.

Enfim, se você se acha preso ou amarrado por alguma coisa, se acha que tem algo na sua vida que tira a sua liberdade, busque autoconhecimento através da Arteterapia, para entrar em contato com  o que realmente o motiva a tomar suas decisões. Aceite que, assim como não podemos controlar o mundo externo, muitas vezes não podemos também controlar conteúdos internos e podemos agir em função deles sem nos darmos conta disso.

“Até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chamá-lo de destino.” (Jung)

 

* Arteterapeuta

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