Até quando? Uma reflexão sobre o desemprego

Por Maria Cristina Dias*
O título da matéria dizia “ex-executivo de SC que vive em aeroporto do RJ consegue emprego: ‘obrigado a todos'” e me chamou a atenção. Abri o link e me deparei com a história do senhor de 58 anos, identificado como ex-executivo de SC desempregado, que foi fotografado dormindo na rua, vestido com roupa social e teve a foto disseminada pelo mundo. Eu peguei o bonde andando e só vi a “suíte”, a matéria em que ele aparecia indo para o trabalho. Mesmo sem revelar que emprego (provavelmente bem aquém de sua experiência e potencial), ele ia aparentemente confiante. Uma esperança de futuro, um final feliz, deu a entender a matéria.
Feliz para quem?
As informações sobre a corrupção generalizada, a desmoralização política, a crise econômica e a violência endêmica tomam conta do noticiário e -pior – permeiam o nosso dia a dia. Mas algumas faces destas mazelas às vezes parecem passar despercebidas. O desemprego que vem a reboque da crise econômica é uma destas faces. talvez a mais perversa. Muito mais que um número anunciado nos telejornais, o desemprego é fonte de desestabilização das famílias.
O trabalho é fonte de dignidade do homem. O que sobra a quem não tem trabalho para garantir a própria sobrevivência e a de sua família? Como fazer planos, sonhar com um futuro melhor para os filhos, se você não tem dinheiro para pagar as contas, para comprar comida e sequer para procurar outro emprego ou ocupação – e depois, como no caso deste senhor, nem um teto para dormir e se preparar para procurar uma nova ocupação?
Sobra um dia, depois outro, sem perspectivas.
Talvez a face mais cruel dessa corrupção generalizada, antiga, que assumiu proporções inimagináveis e que nos últimos tempos vem sendo confrontada, e da irresponsabilidade e despreparo dos nossos gestores no trato com o que é público  é o roubo da dignidade desses trabalhadores, que perderam seus empregos, o acesso à saúde, à educação, ao sonho de uma vida melhor.  Sim, porque ao se desviar recursos públicos que deveriam ser investidos no desenvolvimento do país, e infraestrutura e em serviços para seus cidadãos, rouba-se oportunidades.
A gente finge que não vê, mas essa situação desse senhor não é um caso isolado. Ao contrário. Ela é similar ao que está ocorrendo do nosso lado, com os vizinhos, com os parentes, com um filho.  Talvez até com você mesmo, salvo as devidas proporções e as diferenças de cada história.
Não dá para ler algo assim e achar que o final foi feliz, que este senhor está empregado e que o problema acabou. Está, mas até quando? E os outros? E nós? Até quando conseguiremos conviver com esta realidade, fazendo de conta que só acontece com os outros?
Para quem não viu a matéria, segue o link:
*Jornalista

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