Atrás da parede

Por Donald Malschitzky*

Forram as paredes do térreo e do mezanino, alcançado por escada de madeira. São muitos exemplares de vários formatos, espessuras, cores, idades e estados de conservação. Paredes forradas de histórias, sonhos, lembranças, impressões digitais, cheiros, letras que pousaram umas do lado das outras para dar forma ao que alguém pensou e transformou nessa coisa que resolveram chamar de literatura, que, na origem, é um ajuntamento de letras (“litteris”).

Crédito: Pixabay

 “Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são pessoas.
Os livros só mudam as pessoas”. Mário Quintana

“Do alto destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam”, contam que disse Napoleão ao seu exército antes de uma batalha decisiva, com o objetivo de levantar o moral de suas tropas. O que um general diria frente a paredes de livros? Algo como “Milhões de segredos ávidos por serem descobertos vos esperam”? Dependendo do general, poderia fazer de conta que não tinha a mínima importância, com algo como: “Quem faz a guerra não tem tempo para esses bobagens”, e haveria aqueles que proibiriam seus soldados de abri-los, adivinhando o perigo escondido nas páginas fechadas.

Mas as batalhas, aqui, estão apenas nos relatos espalhados pelos espaços da livraria que comercializa obras novas, mas, principalmente, usadas, que já viveram sua trajetória de leituras e que agora procuram outras mãos para acarinhá-las.

Algo remete a filme de suspense com histórias de passagens secretas, riquezas escondidas ou túneis que levam à liberdade em fugas cheias de surpresas: ao puxar de leve parte de uma prateleira de livros, abre-se uma porta que dá para uma pequena sala repleta de… livros. No banheiro, paredes forradas com cartoons. Não há como escapar: tudo é literatura.

Talvez “metáfora” seja a palavra adequada para a sensação de abrir uma parede de livros e entrar numa sala de livros num lugar cercado por livros. Ao abrirmos livros, abrimos paredes, cabeças, almas, a compreensão do passado, do  presente e a visão de futuro.

Um lugar simples, numa das ruas mais movimentadas de Joinville, propicia tudo isso, a livraria O Sebo, que, mais do que livros, oferece sensações.

 

*Escritor

 

 

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