Cuidado com seus desejos

Por Maria Cristina Dias*

Ele queria ver neve. Queria muito ver neve. Era um dos grandes sonhos de sua vida. Não essa neve rala que cai, nem chega a acumular no chão e já vira água. Queria mais.

Queria ver a paisagem branca no caminho, fazer bolinhas e atirar nos amigos, descer de “esquibunda” de uma colina, sentir o vento frio queimando o rosto.

Desejou ardentemente e foi atrás do seu sonho. Comprou uma passagem para um país europeu no auge do inverno – se tinha alguma chance de ver neve, era lá.

Ferro-velho (Euphonia pectoralis) cantor, que se deixou fotografar em uma tarde de julho, há algum tempo

Fez as malas, embarcou confiante no avião e foi.

Na hora do pouso, a demora. A inquietante demora. Percebeu meio apreensivo que o aviãozinho que aparecia na tela em frente a sua poltrona voava em círculos, sem parar.

Chegou bem no meio de uma tempestade de neve. Não uma “nevezinha” comum. Mas daquelas que se acumulam nas árvores, bloqueiam estradas e impedem aviões de pousar.

Depois de um tempo que pareceu interminável, mas que deve ter durado uns 30 minutos, a aeronave finalmente conseguiu pousar em segurança. O piloto foi aplaudido – sim, ainda aplaudem os pilotos quando o susto é grande – e todos desembarcaram. E ele pode senitr a sua neve. Um final gelado e feliz.

Um pouco romanceada, mas nem um pouco exagerada, esta história é verídica. Lembrei dela esta semana ao me dar conta – mais uma vez – de que os nossos sonhos são a primeira etapa das realizações.

Já perdi as contas de quantas vezes testei isso na prática. Na vida profissional, afetiva, no dia a dia com a casa, com o filho. E até ao observar passarinhos.

Lembro de uma vez que estava pensando com os meus botões passarinheiros que há muito tempo não via um “ferro-velho”. É um passarinho bem comum, com um canto bonito, que não costuma se fazer de difícil. Mas havia tempos que nós não nos encontrávamos por aí. Deu saudades daquele canto tão familiar e que naquele momento pareceu tão distante.

Naquela tarde, estava na minha cozinha preparando algo, quando ouço o som sedutor de um velho conhecido vindo da goiabeira, no quintal. Olhei pela janela e ele estava lá, sozinho, paradinho, enchendo o ar com seu canto inconfundível. Foi um concerto particular. Fiquei um tempo que me pareceu enorme ouvindo, depois peguei minha câmera e registrei a imagem. Ele, pacientemente, esperou.

Tá certo que nem tudo é simples, assim. Pensou, aconteceu, virou realidade e pronto. Quem dera fosse. Seríamos todos felizes, amados, realizados e ricos, obviamente. Não adianta sonhar com a neve e não viabilizar a viagem ou não ter coragem de embarcar nela. Não adianta querer o passarinho e não plantar a árvore no quintal.

Mas tudo começa no desejo, no querer. Nutrir os sonhos é fundamental para nos manter vivos, motivados, com esperança.

O único cuidado é que – para o bem ou para o mal – os nossos desejos se realizam.

*Jornalista

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