É preciso cuidar mais de nossas mulheres

Por Rubens Lodi*

Uma em cada quadro mulheres entre 65 e 74 anos sofre com doença renal crônica. Mulheres têm muitas vezes mais infecções urinárias durante sua idade fértil que homens. Hoje, a Doença Renal Crônica afeta aproximadamente 195 milhões de mulheres no mundo. Esses dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) chamam a atenção para uma verdade devastadora: a doença renal é a oitava causa de morte prematura de mulheres, significando algo como 600 mil mortes por ano.

Por isso, a Sociedade Brasileira de Nefrologia promove o Dia Mundial do Rim, que é comemorado toda segunda quinta-feira de março. Cada ano é pensado um tema, visando a informar a população sobre a prevenção e o momento de olhar sua saúde renal. No ano passado trouxemos a obesidade e o rim; no ano anterior, a saúde renal e as crianças. Em 2018, a campanha, realizada no dia 8 de março, traz como tema: “Saúde da Mulher – Cuide de seus rins”.

Mulheres têm características únicas que as colocam muitas vezes mais sensíveis a doenças que afetam os rins. Existem doenças que afetam majoritariamente mulheres, doenças que muitas vezes afetam 14 vezes mais mulheres do que homens, como Lupus Eritematoso Sistêmico, Esclerodermia e, em menor escala, a própria Artrite Reumatoide. Infecções urinárias, que na maior parte das vezes são simples de serem tratadas e não levam a qualquer problema maior no futuro, podem, sim, afetar os rins e deixar cicatrizes.

Sabemos que a Doença Renal Crônica é um problema de saúde pública. Pode levar à insuficiência renal, à necessidade de procedimentos como hemodiálise ou transplante para se minimizar o risco de uma morte prematura. Esse é um peso para a sociedade, a família e os amigos que não devemos esquecer. O Dia Mundial do Rim deste ano nos leva a pensar sobre isso, uma mistura de oportunidade e reflexão.

Mulheres durante a gravidez são ainda mais especiais. A gestação naturalmente eleva a função renal – daí a importância do rim nessa fase da vida. Nesse momento a mulher tem uma chance especial de diagnosticar uma doença renal crônica durante o pré-natal através do contato com equipes de saúde. Essa condição é de extrema importância, uma vez que uma doença renal crônica impacta a gestação e transfere maiores riscos à saúde da mãe e do bebê, como risco de hipertensão, risco de parto prematuro, risco de piorar doenças como Lupus e suas consequências. É preciso lembrar que nesse momento tempos um impacto da doença renal nessa e na próxima geração.

Questões que vão além das doenças inerentes às mulheres, questões de equidade de tratamento, também são importantes. Apesar de termos ligeiramente mais mulheres com doença renal do que homens, existe, sim, uma desproporção mundial dessas aos serviços de hemodiálise. Existem significativamente menos mulheres em diálise do que homens. Por outro lado, mais mulheres são doadoras de rim e menos mulheres são transplantadas. Temos de refletir sobre isso. Entender as causas e cuidar melhor de nossas mulheres.

Focar no acesso das mulheres aos cuidados avançados da doença renal como a diálise e o transplante, focar em conscientizar-nos sobre doenças específicas em mulheres que impactam na função dos rins e estarmos atentos à gestação como um momento para diagnóstico preventivo e os cuidados à gestante com doença renal. Esses são os recados da Sociedade Brasileira de Nefrologia, seus nefrologistas e de todos envolvidos no cuidado dos pacientes com Doença Renal Crônica neste Dia Mundial do Rim.

* Rubens Lodi é médico nefrologista, membro do Departamento de Diálise da SBN e consultor da B. Braun Avitum

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