Em 1968, com 11 aninhos

Por Roberto Szabunia*

 

Onde você estava e o que fazia em janeiro de 1968? Esta pergunta, claro, vale pra quem já era nascido.

Eu, por exemplo, por esses dias de janeiro curtia as férias escolares no agradável verão de Rio Negrinho. Não me lembro ao certo das circunstâncias, talvez estivesse com a família passando uma temporada em Barra Velha; ou porventura em Enseada, com meu pai, na casa de veraneio dos Kursancew. De qualquer forma, início da estação mais quente, meio das férias.

O mundo se agitava, prenunciando o que seria um ano fervilhante. Só que, seja em Rio Negrinho, Barra Velha ou Enseada, pouco ou nada sabia do que se afigurava como um dos mais emblemáticos anos da História. Para mim, no penúltimo período da infância, o que interessava era a expectativa pelo reinício das aulas.

– E por que essa ansiedade? – perguntaríeis, espantados pelo sentimento nada apropriado a um pré-adolescente em férias.

Ora, em dezembro anterior eu concluíra o 4º ano do primário. Dias depois, fora aprovado em segundo lugar no exame de admissão, que me possibilitava pular o 5º e ser matriculado direto no ginásio. Por isso a expectativa: como seria na nova fase da vida? Sem o carinho das irmãs, o uniforme de marinheiro, as aulas matutinas… No ginásio não havia uniforme, o período era vespertino, havia mais professores… Felizmente, tudo isso não implicaria em mudança de casa, já que o Ginásio São José ocupava o andar térreo do Educandário Santa Terezinha, meu lar desde o jardim de infância.

Pra mim, portanto, 1968 foi um ano pra lá de emblemático. Hoje, diria que acompanhei o ritmo do mundo – mesmo quase sem saber o que rolava em Paris, Praga, Bethel (a cidadezinha onde se realizou o Festival de Woodstock), São Paulo ou Brasília; às vezes a Rádio Rio Negrinho noticiava algo, como “tumultos na França” ou “violência na Checoslováquia”; também os telejornais mostravam os acontecimentos globais e nacionais, mas tudo muito resumido em tempos de censura braba.

Nas aulas de História, enfim, o professor Kormann fez um sumário dos quatro anos iniciados em 1964. Tudo, claro, de modo a que os alunos se convencessem de que a “Revolução” salvara o Brasil das garras do comunismo. Era regra, todo professor tinha essa missão doutrinadora. Aos domingos, antes da missa das 10, seminaristas e o pessoal da TFP faziam um rápido comício em defesa da democracia e dos valores cristãos. Para nós, pré-adolescentes, tudo certinho.

No início de abril soubemos, pela TV, que um ativista negro fora assassinado na América do Norte. Novamente na aula de História, éramos mais bem informados sobre Martin Luther King.

Em Rio Negrinho a vida seguia… Quase todos da turma sabiam a letra completa de “Era Um Garoto que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones”. Nos trechos em inglês improvisávamos: “…cantava help, intique tsu ai, olei di djei oiés te dei…”. Os piás adoravam quando as meninas entoavam “…te dei…”.

A primeira série do ginásio foi, ao contrário do que eu temia, uma moleza. Em outubro, quando ouvíamos falar de uma batalha de estudantes universitários em São Paulo, eu já tinha média de aprovação em todas as matérias. E, novidade no Ginásio São José, desde maio tínhamos uniforme: calça azul, camisa branca com elegantérrimas platinas azuis (aquela peça de tecido sobre o ombro, como nas camisas militares) e blusa azul para os dias frios. Nos pés, Conga azul no dia a dia e branca nas sessões cívicas e nos desfiles.

Veja só: em 1976, fazendo a faculdade, passava todos os dias pelo cenário da batalha de rua entre estudantes do Mackenzie (onde eu estudava) e da USP. Ali na rua Maria Antônia.

Em dezembro, já em férias, sabia que algo sério acontecia lá fora, no Brasil. A TV só falava de um tal de AI-5, e acabei gravando na memória a imagem do presidente Médici, que quase todo dia aparecia na telinha.

Assim passou-se 1968. Um ano feliz para um piá de 11 anos, um período marcante na História do mundo. Na próxima encarnação, se houver, gostaria de renascer em 1948, em Paris, e morar na mesma rua de Daniel Cohn-Bendit; ou numa fazenda na pequena cidade norte-americana de Bethel, pertinho de Woodstock. Só pra variar…

 

*Jornalista

4 Comentários

  1. Jeferson Correa disse:

    Eu gostei!

  2. Eduardo Scheidegger Jr. disse:

    Muito bom texto, como sempre!

  3. Peter Kadur disse:

    Eu estava em Detroit, preparando mudança para o Brasil em agosto do mesmo ano. Cheguei num país melhor que hoje.

  4. Hélio Oliveira disse:

    1968 marca o início de uma amizade daquela Turma do Ginásio que se formaria em 1971, da qual o cronista e este leitor fazem parte. Computados dessa forma são portanto, agora em 2018, 50 anos – meio século – de boas histórias daquela Turma. Histórias que o autor nos conta com riqueza de detalhes em suas crônicas. Parabéns amigo Szabunia.

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