Fomos nós, e agora?

Por Donald Malschitzky*

 

Amigo solta a pérola, como justificativa: “Criamos os lixões e os aterros sanitários e as futuras gerações terão que conviver com isso”. Parece uma constatação, mas não o é: disse-o como justificativa para a usina geradora de lixo em que nos tornamos, deixando clara a intenção: eles que se virem.

Crédito: Pixabay

Havia muitas florestas em nossa época, mas criamos uma cultura de que elas representavam o atraso, e não tivemos o mínimo escrúpulo em acabar com elas. E éramos bons nisso: precisando de madeira, derrubamos o que precisávamos e o que estava no caminho. Depois inventamos o reflorestamento, mas você não vai acreditar: derrubamos muita floresta nativa para plantar árvores exóticas, e assim termos madeira disponível. Precisava de comida? Resolvemos com a devastação do que havia de vegetação para criar campos de plantio ou de pastagem.

Também criamos pesticidas poderosos que dizimaram várias pestes, pássaros, borboletas, minhocas e seres humanos.

Éramos práticos: por um bom tempo devolvíamos as garrafas usadas, aí inventamos os vasilhames “one way” e os misturávamos ao lixo comum. Aliás, em nossas lixeiras não tinha isso de separar, não. Sabe os amontados de lixo, com tudo misturado e causando tragédias? São mérito nosso.

Ah! Depois inventamos as embalagens pet, que são uma maravilha e eram mais fáceis de jogar no lixo, pois não quebravam. O mesmo aconteceu com as latas de alumínio para bebidas. Um dia, o leite começou a ser embalado em sacos plásticos. Depois de usados, iam para o lixo ou qualquer canto por aí.

Nunca na história da humanidade tantas facilidades preguiçosas foram criadas: para cada dificuldade, inventamos centenas de facilidades, sem nos preocuparmos com as consequências; se ficássemos bem e não víssemos os estragos, estava tudo bem, desculpe a redundância.

Lembro-me dos rios de minha infância; muitos viraram valetas, outros desapareceram e outros, maiores, estão aí: funcionam como via de escoamento de dejetos. Tínhamos que chegar às suas margens, por isso cortamos a vegetação que os emoldurava; precisávamos dar um destino ao nosso cocô e o jogamos dentro deles.

Criamos a maior indústria do desperdício para a fabricação de embalagens atrativas, visando induzir as pessoas a decidirem pelas embalagens e não pelos produtos.

É, fizemos muito mais coisa errada e fomos irresponsáveis e, mesmo que não o fizéssemos, eu não deveria usar sacola plástica, mas o pior é que fizemos.

 

*Escritor

 

 

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