Isso não me pertence

Por Maria Cristina Dias*

Estava assistindo uma série na Netflix, a versão mais nova das tradicionais novelas, e me deparei com uma personagem que queria seguir a própria vida, ser feliz (não é o que todos queremos?), mas carregava a responsabilidade pelo futuro das irmãs, da família. Era uma série ambientada no século 17 e a personagem não deveria ter mais de 18 anos – se é que tinha isso tudo. Era nova, deveria ter um futuro pela frente cheio de desafios – que poderiam ser bons ou ruins, não importa.
Mas carregava consigo o peso de uma responsabilidade que era enorme para a sua idade. Mais que isso, uma responsabilidade que, de fato, não lhe pertencia.
Não que a gente não tenha obrigação de cuidar da família ou que não deva se preocupar com o próximo, ou ter empatia pelo outro. A questão é quando assumimos coisas que não são nossas ou que não temos o poder de resolver e usamos isso como desculpa para não fazer o que realmente depende da gente.
Demorou muito tempo para eu me dar conta de que não adianta sofrer pelo amigo que está desempregado, pelo desconhecido que está em dificuldades, pela colega que troca um relacionamento doentio por outro há anos e vive reclamando que não tem sorte, ou por todas as pessoas com algum tipo de carência que cruzam o meu caminho.
Por mais que o coração fique apertado, não temos como solucionar todos os problemas do mundo. Adianta ajudar da melhor maneira que podemos, sim, sempre, mas sem perder de vista aquilo que realmente posso fazer e sem carregar um peso extra que não me pertence.
Não posso fazer o curso de qualificação ou a terapia que pode fazer a diferença na carreira daquele amigo – isso depende dele. Ou mudar o jeito como a colega que repete os namoros desastrosos se relaciona com si mesma e faz com que faça escolhas que ela, no fundo (ou no raso, mesmo), sabe que a levarão aos mesmos lugares ruins já percorridos. Ou gerar uma dependência, seja física, afetiva, econômica ou de qualquer tipo, que impeça o outro de crescer e descobrir seus próprios caminhos.
Eu posso mudar o que depende de mim – e mesmo assim, nem tudo, como  já percebi duramente ao longo dessa vidinha.

*Jornalista

1 Comentário

  1. Estela disse:

    Penso assim também! Um abraço.

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