Ó, impuros corações

Por Roberto Szabunia*

 

Ouvi no rádio, por esses dias, uma notícia abordando o sistema prisional catarinense. Resumindo: construir mais presídios e aumentar a capacidade dos atuais.

O que isso significa? Coisa boa não é. Afinal, se falta lugar nas cadeias, é porque tá sobrando quem as mereça. De fato, nessas seis décadas de vida, nunca vi tanta maldade grassando por aí. Sem me arvorar em saudosista, mas gosto de relembrar uma época em que saía de casa pra buscar uma encomenda no açougue e deixava a bicicleta apoiada no meio-fio, sem cadeado nem nada. Na saída, era garantia de que o veículo estaria no mesmo lugar (a não ser, claro, que alguém da minha turma resolvesse sacanear e escondesse a bicicleta; sem problema, era só dar uma olhada nas casas próximas; ou ir pra casa a pé e reaver a bici depois). Tente deixar uma bike hoje, de bobeira, na rua…

Por que os corações da humanidade andam tão impuros?

Minha professora de Sociologia colocaria a culpa no sistema. O Prates diria pra mandar os malandros pra delegacia dele. O Moro prende; o Gilmar solta.

Vejo culpa por todo lado, mas a principal – em minha opinião, friso – vem de dentro. Corações impuros, eis um grande problema.

Créditos: Pixabay

E não é de hoje. Num dos livros mais antigos da História tá escrito: “O que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior”. Quem disse isso? Um certo rabino nascido e criado na Galileia. Tá lá, no capítulo 7 do Evangelho de Marcos. Jesus diz umas verdades doídas: “Será que nem vós compreen­deis? Não entendeis que nada do que vem de fora e entra numa pessoa pode torná-la impura, porque não entra em seu coração, mas em seu estômago e vai para a fossa?”.

Quem me lê com frequência sabe que não sou do tipo religioso, ainda que tenha nascido e me criado no seio de uma catoliquíssima família polonesa. Hoje sou agnóstico teísta. Mas vejo Jesus como um grande filósofo, dono de um conhecimento dialético fantástico e uma oratória magnífica – não escreveu nada, lembremos, só falou. Gosto, sobretudo, de algumas parábolas eternas, adaptáveis a qualquer tempo. Essa dos corações impuros é supimpa.

Jesus declarava que todos os alimentos eram puros. Ele disse: “O que sai do homem, isso é que o torna impuro. Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo. Todas estas coisas más saem de dentro e são elas que tornam impuro o homem”. Sensacional! Jesus não culpava o sistema.

Li esse trecho da Bíblia no Evangelho de quarta-feira passada. Recebo, diariamente, um email do amigo padre Renato dos Santos, ex-vigário aqui da Paróquia Santo Antônio e hoje chefe de Imprensa do Vaticano. Renato sempre faz uns comentários pertinentes. Sobre a parábola em questão, diz ele: Jesus nos dá um novo referencial para pensarmos mais profundamente o nosso relacionamento com a obra da criação. A concepção da época era que as coisas externas contaminavam o interior da pessoa. E Jesus nos apresenta um modo de pensar completamente diferente. Não são as coisas externas que nos contaminam, mas o que sai de dentro do nosso interior, ou seja, do nosso coração.

Biblicamente, a expressão “coração” quer simbolizar aquele espaço que é o berço dos sentimentos, das emoções, do afeto etc. Ou seja, purificar o coração é o mesmo que dizer: purificar a própria consciência, os próprios pensamentos, desejos, opções… Ter o coração convertido é ter a consciência completamente mudada. É de dentro da nossa razão, da nossa inteligência, da nossa consciência que saem as nossas péssimas maquinações de maldade. Só lavar as mãos e purificar as coisas para serem ingeridas não basta.

Eu arremato: quando nada funciona, melhor construir mesmo mais prisões.

*Jornalista

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