O sabático e uma nova forma de viver e trabalhar

Por Maria Cristina Dias*

As mudanças são tantas e tão recorrentes que o tema anda se repetindo por aqui. Fazer o quê? A gente escreve sobre o dia a dia e a inconstância é parte dele.

Há algum tempo virou moda tirar um ano sabático para se dedicar a um projeto próprio, além do trabalho. Não estou falando de férias, aquele momento em que você, exausto física e mentalmente, para por um tempinho para voltar a produzir mais depois. Não, o ano sabático é um ano de descanso, mas também de renovação.

A ideia de um período sabático é antiga. Na Bíblia, ele aparece, entre outras coisas, como aquele período de descanso da terra – neste caso por determinação divina. “Assemelha-se ao mesmo pedido que Deus fez aos seres humanos em parar de trabalhar um dia na semana, o mesmo dia em que Ele descansou para contemplar sua criação, o sétimo dia, ou seja o sábado”, consta no site http://www.abiblia.org/ver.php?id=4278.

No meio profissional, porém, o ano sabático é aquela pausa na sua atividade para buscar algo mais. Geralmente termina com uma transformação, que pode ser profissional, pessoal ou ambas. Até há pouco tempo, ele era o sonho de profissionais na faixa dos 30, 40 anos, já consolidados na profissão.

Agora me parece que esta faixa etária migrou para um pouco mais tarde. Pessoas de 50, 60, que até há algumas décadas estariam se encaminhando para a aposentadoria (ou até já aposentados), estão optando por fazer uma pausa na vida produtiva. Pausa, não aposentadoria – é bom destacar.

A mudança é reflexo da realidade atual, claro.

A expectativa de vida aumentou nos últimos anos, fazendo com que as pessoas cheguem aos 80, 90 anos com saúde, lucidez  e muita disposição. A idade produtiva também é cada vez mais estendida – e por diversos fatores. Seja pela impossibilidade financeira (muitos idosos continuam sendo responsáveis pelo sustento da família mesmo com os filhos já criados e, em tese, prontos para seguir a própria vida), seja pelas regras cada vez mais restritas, que fazem com que o trabalhador (especialmente os mais carentes) tenham que trabalhar por mais tempo para conseguir se aposentar. Ou ainda – e nesse caso, principalmente – a percepção de que aos 60 anos a pessoa está em plena atividade intelectual, muitas vezes em sua melhor fase, e tem muito a contribuir com o mundo em que vive.

Mas chega um momento em que renovar é preciso. E surge a vontade, a necessidade de fazer essa parada estratégica para se dedicar a coisas que acabam ficando de lado com a rotina e os compromissos e obrigações. É hora de parar e olhar para si, para dentro. Tentar um ritmo diferente no dia a dia, uma atividade que não seja profissional, fazer coisas há muito tempo desejadas. Um tempo de descoberta – ou redescoberta, se achar melhor.

Não é preciso ir longe para isso. Muito menos ter um caminhão de dinheiro (ou malas, para usar algo atual). Pelo contrário. Talvez um exercício de simplicidade possa trazer uma riqueza especial ao período. Prestar atenção com calma ao que está à sua volta e que passa despercebido na nossa louca rotina acelerada pode revelar momentos únicos e contribuir de forma expressiva para esta tão sonhada renovação. Sem dúvida, vale a pena tentar.

A grande pergunta que me faço (sorry, eu sempre me faço este tipo de pergunta) é “E depois?”.

O período sabático tradicional deixa subentendido um retorno. Esse sabático da maturidade também, imagino eu. A questão é para onde se volta. Para uma nova vida profissional? Para a antiga? Para a aposentadoria? Para alguma outra forma de atividade? Ou ele deixa de ser um período provisório por definição e passa a ser o novo dia a dia?

Enfim, novas realidades sempre trazem novos questionamentos. Estes são apenas mais alguns deles.

*Jornalista

1 Comentário

  1. PARABÉNS! … belíssimo e atualizado. Faz parte do cotidiano! Que bacana!

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