Sobre aprendizes e aprendizados

Por Maria Cristina Dias*

 

Eu sei fazer licor de laranja. Também faço biscoitos amanteigados. Costumo colocar um pedaço de canela em casca no molho do frango ensopado. Incorporei ao ritual de Natal o hábito de enfeitar a árvore com velas acesas e de ler mensagens na hora da ceia – na verdade, poemas que lembrem a data. São pequenas coisas que aprendi aqui e ali, conversando com as pessoas, fazendo entrevistas, observando.

O licor de laranja aprendi com o “seu” Raul. Fui fazer uma foto para colocar no site – não a usei até hoje, desculpe-me, seu Raul – e ele me ofereceu um licor caseiro delicioso. Perguntei como fazia e na mesma hora saí com as instruções. Que receita, que nada. Ele explicou, eu gravei na cabeça e na hora de fazer devo ter mudado um pouco, como faço sempre. Isso já faz uns dois anos. Mantenho sempre uma garrafa em casa e quando, no fim da noite, tomo um gole do meu licor de laranja, tenho uma sensação boa e a certeza de que ele não é uma bebida qualquer, dessas que compramos prontas e engolimos sem prestar muita atenção no gosto.

As velas acesas vieram a partir de uma reportagem de Natal e um dos muitos bate-papos com a dona Jutta. Teria que escrever um livro para listar tudo que aprendi com ela ao longo de anos e das muitas conversas. A canela foi dica preciosíssima de uma colega de trabalho há mais de duas décadas. Já as mensagens foram de uma entrevista com a irmã do seu Raul, dona Margit, que me encantou com a delicadeza com que me recebeu.

Nem sei quando isso começou. Mas recentemente me dei conta de que em cada lugar que passo, com cada pessoa que converso ou entrevisto, aprendo algo e incorporo à vida. E isso não se limita a coisas concretas, como o licor ou as velas. Vai muito além e incluem a maneira de ver a vida, de encarar os problemas, de conviver com as diferenças e lidar com as pessoas – algo que está longe de ser fácil.

Talvez a prática de ouvir e observar que são fundamentais na minha profissão tenham contribuído para isso. Ou talvez o contrário… o hábito de ouvir e olhar tenham me levado para o meu ofício. Difícil dizer ao certo.

Mas aos poucos, ao longo de anos, fui me tornando uma aprendiz cada vez mais consciente da própria ignorância e aberta ao que o outro traz consigo. Com isso, fui incorporando um rol de aprendizados que prezo muito, que fazem muito sentido na minha vida. E que de alguma forma vou disseminando por aí, por onde passo, em cada texto ou imagem que faço, nas amizades que cultivo, nos amores que nutro. Porque um desses aprendizados mais importantes é o de que conhecimento não se guarda. Ao contrário, se compartilha.

*Jornalista

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