Aprimoramento moral

Por Carlos José Serapião*

Importantes e variadas circunstâncias têm alterado o nosso modo de vida, entre as quais, o aumento da população, a revolução na agricultura, as múltiplas tecnologias introduzidas em vários campos das ações humanas e a velocidade exponencial dos avanços científicos. O desejo de melhorar é inerente ao ser humano, que busca alcançá-lo pela educação.

Métodos conhecidos como tradicionais, representados pela educação e pela socialização, antigos como a própria humanidade, despertam o impulso em buscar o bioaprimoramento moral por intermédio das neurociências e da antropotecnia, com intervenções que se espalham pela literatura científica, incorporando vários tipos de psicofármacos, experimentos de estímulos cerebrais profundos, engenharia e seleção genética etc.

As ciências biomédicas, ao lado de significativos avanços tecnológicos que se constituíram em práticas consagradas para a preservação, a promoção e a restauração da saúde, pouco puderam contribuir com intervenções capazes de aprimorar a moralidade do indivíduo.

O senso comum da moralidade se relaciona diretamente com o natural sentimento de causa e responsabilidade, fazendo-nos perceber de modo mais intenso quando causamos sofrimento do que quando negligenciamos para criar um benefício. A distância entre saber o que é o bem e fazer o bem é preenchida, somente, pela liberdade e a autonomia do indivíduo, convivendo com o altruísmo, a sensibilidade, a consideração, em suma, ser capaz de “nos colocar no lugar do outro”. Afinal, não há virtude em apenas fazer o que deve ser feito.

Ao se considerar o aprimoramento moral, surge uma questão resumida no fato de que todas tecnologias que já se encontram ao alcance, ou estarão em pouco tempo envolvidas no processo, buscam promover transformações no ser humano. Todas despertam reflexões no terreno da ética, criando espaço para entendermos as variadas discussões sobre a permissão para sua utilização, e contra as quais se opõem os chamados “bioconservadores”.

Aqueles que defendem o aprimoramento moral por meios biomédicos esbarram também com limitações, tanto no que se refere aos procedimentos como em relação ao seu próprio entendimento moral. (Esse, aliás, será um dos temas centrais do 18º Simpósio Catarinense de Bioética, que se realiza em Joinville no próximo dia 30 de novembro.)

Há que considerar, também, o fato de as investigações estarem ainda em suas fases iniciais, tornando difícil avaliar sua eficácia e consequências a longo prazo, sobretudo quando enumeramos a variedade das metodologias aplicadas: drogas (oxitocina, ritalina), modificações genéticas, estimulação cerebral não invasiva, todas com a intenção de aprimorar a atenção, a memória individual, as funções executivas ou cognitivas, para além do normal.

O aprimoramento moral se refere à implementação do comportamento moral ou social, melhor do que dos atributos físicos ou cognitivos, razão pela qual desperta singulares questões éticas, diferentes das consideradas nas propostas de aprimoramento das capacidades cognitivas.

Ao final, vale citar a reflexão contida no livro “Unfit for the Future” (Julian Savulescu & Ingmar Persson). “A humanidade segue transformando seu ambiente natural através dos avanços tecnológicos, enquanto suas disposições morais permanecem virtualmente inalteradas. No momento, a evidente ambição está representada por aprimoramento moral em sua visão genérica com o bioaprimoramento em particular. Considerando que no século passado, utilizou-se grande quantidade de recursos para ampliar nossa capacidade de causar danos e guerras, seria no mínimo triste se, neste século, rejeitássemos oportunidades de ampliar nossa capacidade de criar benefícios, ou de pelo menos prevenir maiores destruições.”


*Carlos José Serapião é coordenador do Instituto Dona Helena de Ensino e Pesquisa (IDHEP) e do 18º Simpósio Catarinense de Bioética, que se realiza no dia 30 de novembro, em Joinville.

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