Conheça ações que unem dança e saúde em Joinville

Por jornalista Patrícia Gaglioti
Equipe Fazer Aqui


Nesta segunda-feira, dia 29, comemora-se o Dia Mundial da Dança. Conhecida por sediar a única filial do Teatro Bolshoi fora da Rússia, a Escola de Teatro Bolshoi no Brasil, e o Festival de Dança de Joinville, citado pelo Guinness Book, em 2005 como o maior festival de dança do mundo, a cidade ainda carrega o título de Capital Nacional da Dança desde o ano de 2016.

Mas para além da dança profissional, executada por bailarinos, essa expressão artística também é usada na promoção da saúde e do bem-estar de pessoas idosas, com deficiências físicas e intelectuais, e com problemas psicológicos como a depressão. Em Joinville isso acontece graças ao trabalho de diferentes grupos e profissionais que unem a arte à saúde.

Dança Sênior na Unidade Básica de Saúde da Família

Aula de dança sênior da Unidade Básica de Saúde da Família Leonardo Schilickmann, no bairro Iririú (Foto Silvia Regia Rossi)

O começo das atividades, em 2019, do grupo de dança sênior da Unidade Básica de Saúde da Família Leonardo Schilickmann, no bairro Iririú, será nesta segunda-feira, justamente no Dia Mundial da Dança. A unidade de saúde está passando por uma reforma, por isso o grupo se encontrará provisoriamente no Espaço Cultural Casa Iririú, destinado à realização de oficinas e apresentações artísticas no bairro.

A dança sênior é um método pensado para pessoas com mais de 60 anos de idade, que estejam com depressão ou isolamento social, com limitações físicas parciais, permanentes ou temporárias. Foi criado pela coreógrafa e psicopedagoga alemã Ilse Tutt em 1971 e chegou ao Brasil em 1978, através da arquiteta alemã Christel Weber, que morava no Rio de Janeiro.

Desde 1993 em Joinville

Em Joinville a dança sênior chegou no ano de 1993, na Instituição Bethesda, em Pirabeiraba. Foi depois de uma capacitação em dança sênior que a Prefeitura de Joinville ofereceu para profissionais de unidades de saúde interessados, em 2016, que a Unidade Leonardo Schilickmann iniciou seu grupo de dança sênior.

Toda segunda-feira, às 15 horas, o grupo de cerca de 30 idosos se reúne para dançar. Vale dançar em pé e também vale dançar sentado. Tudo depende da condição física de quem dança. “Esse método trabalha o corpo todo. Fazemos vários tipos de movimentos que podem ser repetidos em casa, inclusive”, explica Silvia Regina Rossi, agente comunitária da Unidade Leonardo Schilickmann, que trabalha com outras três profissionais da saúde com o grupo de dança sênior.

Esse tipo de dança segue um ritmo e movimentos específicos. Adota passos curtos, leves e mais lentos, que podem ser aprendidos com mais facilidade por quem não é acostumado a dançar. As coreografias são simples e as músicas, alegres, o que proporciona sensação de bem-estar a quem participa.

De acordo com Silvia, como os idosos aprendem coreografias, a dança acaba melhorando a concentração e a memória dos participantes, além de se conectarem com aquele momento e esquecerem, ainda que momentaneamente, de seus problemas e dores. “Nesta idade é comum que eles se isolem e se afastem de algumas atividades e pessoas. Mas no grupo eles conversam e se divertem. É uma oportunidade para celebrar a vida”, aponta Silvia.

Por isso, a dança sênior é considerada uma atividade estimulante, que proporciona melhoras consideráveis nos aspectos físico, mental e social dos idosos. É uma oportunidade de o corpo extravasar emoções e sentimentos, de a mente se tornar mais saudável e estimular o relacionamento com outras pessoas e o pertencimento a um grupo.

Silvia Regina Rossi, agente comunitária da Unidade Básica de Saúde da Família Leonardo Schilickmann (Foto: Divulgação)

Segundo Silvia, os próprios médicos e enfermeiros da unidade de saúde indicam a dança para alguns idosos, como aqueles que apresentam sinais de depressão. “Há casos de pacientes que melhoraram sua diabetes, a pressão arterial e chegaram a diminuir a dosagem dos remédios, por conta da dança”, conta Silvia.

Embora o grupo seja focado em idosos com mais de 60, nada impede que outras pessoas participem dele. Silvia ressalta que não há limitações que impeçam de participar. Pessoas com mobilidade bastante reduzida, como cadeirantes, também podem.

Para participar do grupo, basta chegar. A unidade de saúde fica na rua Jorge Augusto Emílio Müller, 118, bairro Iririú. Enquanto a reforma da unidade não fica pronta, o grupo está se reunindo no Espaço Cultural Casa Iririú, na rua Guaíra, 634, também no Iririú.

A arte é para todos

Peça Doze Trabalhos, do Grupo de Teatro Arte para Todos (Foto: Chico Maurente)

“É revolucionário”. Assim define Nathielle Wougles, terapeuta ocupacional, o papel da dança e da arte de forma geral na vida de pessoas portadoras de deficiências intelectuais. “Você passa a aceitar o seu corpo, colocando-o como protagonista”, afirma.

Nathielle participa, desde 2013, do programa Arte para Todos, do Instituto de Pesquisa da Arte pelo Movimento (Ímpar), uma associação cultural privada, sem fins lucrativos, fundada em 2011 por um grupo de profissionais do setor artístico, entre eles o ator e professor de teatro Robson Benta e a jornalista e produtora cultural Iraci Seefeldt.

O projeto “Arte para Todos” começou no ano de 2011 com o Laboratório de Teatro do Naipe, o Núcleo de Assistência Integral ao Paciente Especial, que atende a pessoas com deficiência intelectual em Joinville.

No mesmo ano, o laboratório de teatro se transformou no projeto “Arte para Todos”, que se tornou um programa permanente dentro do Ímpar, em parceria com o Naipe. A dança começou a fazer parte do projeto em 2012, sob o comando da bailarina e professora do Ímpar Maria Fortuna. No primeiro momento, o trabalho era voltado para exercícios de coordenação motora e ritmo, com os alunos de teatro.

“Era incrível ver a descoberta do movimento. Tendo como princípio a aplicação de técnicas e conceitos de consciência corporal e dança criativa, a dança foi se estruturando como prática constante para reconhecimento do corpo e das possibilidades de movimentação dos alunos nas aulas de teatro”, relembra Iraci Seefeldt no livro “O seu olhar Melhora o Meu – cinco anos do programa Arte para Todos”, lançado neste ano.

Segundo Nathielle, a dança que se trabalhava com os alunos era a dança criativa, mais livre e orgânica, com o objetivo de desbravar movimentos e possibilidades do corpo de cada um. O papel da terapeuta ocupacional no grupo é acompanhar e dar suporte aos alunos.

“A gente usa duas coisas muito importantes no Arte para Todos, que são os carros-chefes da terapia ocupacional: a análise da atividade e o atendimento holístico, que é ver o paciente como um todo – biopsicossocial, pensar no corpo dele, pensar no psicológico, pensar na família, na escola, nos amigos, em todos os contextos sociais dele”, afirma Nathielle no documentário “Arte para Todos”, gravado em 2013.

Oficina de Dança Infantil Arte para Todos / Naipe (Foto: Chico Maurente)

Dentro do programa “Arte para Todos”, o teatro e a dança deixam de ser apenas arte e se tornam terapia. Os jogos cênicos propostos pelos professores servem como um “laboratório para a vida real”, como definem, pois trabalham com situações e práticas do cotidiano dos alunos envolvidos.

Através do teatro e da dança, o programa contribui para tornar os indivíduos com deficiência intelectual mais conscientes, criativos e sem inibições para atividades sociais. Eles lidam com as emoções humanas e desenvolvem sua relação consigo mesmo e com os outros.

Sem recursos para este ano ainda

Neste ano, o programa “Arte para Todos” ainda não iniciou a oficina de dança. Segundo Nathielle, o Ímpar ainda não conseguiu patrocínio para a realização da atividade. Um projeto já foi aprovado pela Lei Rouanet e a verba precisa ser captada entre o empresariado local.

O trabalho das oficinas desenvolvido no “Arte para Todos” é gratuito. As oficinas ocorrem através de recursos vindos de editais públicos de fomento à cultura, como o Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura (Simdec), o edital Elisabete Anderle, do governo de Santa Catarina, e a Lei Rouanet, e também com patrocínios diretos de empresas ou instituições.

No ano de 2014 foi assinado um convênio formalizando a parceria entre a Prefeitura de Joinville, por meio da Secretaria de Saúde, e o Ímpar. O convênio não prevê repasses financeiros ao instituto, mas autoriza que os usuários do Naipe acessem de forma gratuita as atividades do “Arte para Todos”. O Naipe, por sua vez, fica responsável por fazer a triagem, a indicação e o acompanhamento dos alunos que participam das oficinas e atividades do Ímpar.

O Ímpar também tem uma parceria com o Serviço Organizado de Inclusão Social (Sois), da rede pública de assistência psicossocial de Joinville. Os pacientes que frequentam o Sois podem participar das aulas de teatro do instituto. Portanto, para participar do programa “Arte para Todos” e outros projetos do Ímpar é necessário ser encaminhado via Naipe ou Sois.

Dança aplicada no tratamento de transtornos mentais

O “Serviço Organizado de Inclusão Social” (Sois) faz parte da rede de assistência psicossocial, vinculada à Secretaria da Saúde de Joinville, e é responsável por promover a inclusão social de pessoas com transtornos mentais ou necessidades decorrentes do uso abusivo de álcool e outras drogas.

O Sois atende a pessoas com transtornos mentais moderados e graves, como esquizofrenia, transtorno bipolar e depressão com propensão a suicídio. Normalmente os usuários chegam à unidade encaminhados pelo Centro de Atenção Psicossocial (Caps), pelo Serviço Ambulatorial de Psiquiatria (SAPS) ou por demanda espontânea.

Dentre as atividades que o Sois realiza com seus usuários estão as oficinas de geração de renda, que incluem pintura em tela, tapeçaria e arte com papéis reciclados, e as oficinas culturais de música, teatro (em parceria com o Ímpar), canto e dança.

Faz mais ou menos cinco anos que a terapeuta ocupacional Cristiane Regina Tavares iniciou a oficina de dança de salão com os usuários da unidade. No início, era uma parceria firmada com o Estúdio Dança e Tradição, de Joinville, mas há alguns anos a própria terapeuta começou a dar as aulas.

Toda segunda-feira, das 14 às 16h30, o grupo de 12 pessoas se reúne no auditório do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Joinville e Região (Sinsej) para as aulas. A oficina não acontece na sede do Sois por não ter uma sala grande o suficiente para a dança.

No decorrer das oficinas, Cristiane percebeu que os alunos tinham capacidade de desenvolver passos mais elaborados. “Então eu tornei os passos mais complexos e aumentei o tempo das aulas para que eles tivessem mais tempo de aprender”, conta Cristiane.

“A gente vê uma transformação naqueles que participam da oficina de dança. Eles adquirem autoconfiança e disciplina. A dança também estimula as relações sociais, que em geral ficam bastante comprometidas em pacientes com transtorno mental”, afirma.

Segundo Cristiane, o grupo de dança realiza algumas apresentações durante o ano, inclusive fora do espaço da unidade. O grupo já se apresentou em eventos na Univille, no Lar do Idoso Betânia e na Instituição Bethesda. “Quando eles se apresentam nos lares de idosos, por exemplo, como voluntários, interagindo e dançando com os idosos, eles se sentem capazes e muito estimulados. Eles deixam de ser vistos apenas como atendidos pela saúde e passam a ser protagonistas”, completa Cristiane.

Apresentação na Unidade Básica de Saúde do bairro Fátima. Foto divulgação.

Benefícios da dança

Neurológicos: melhora da atenção, concentração, memória, raciocínio, equilíbrio, coordenação motora, noção espacial. Também estimula a aprendizagem, ajuda a combater a deterioração cognitiva, previne doenças neurodegenerativas. A dança também provoca a produção de endorfina, serotonina e dopamina, hormônios responsáveis pelo bem-estar.

Físicos: melhora a resistência, a flexibilidade, a tonificação muscular, a agilidade e também a respiração.

Psicológicos: melhora o humor, alivia tensões de estresse, desenvolve a perseverança, a iniciativa própria, disciplina e autoconfiança. Promove a valorização pessoal, com a percepção de que os usuários são capazes de aprender e executar as atividades. Também promove satisfação e equilíbrio emocional.  
Sociais: estimula as relações sociais, a cooperação, a adequação do comportamento e o respeito com o próximo.

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