É só um minutinho

Por Maria Cristina Dias*

Colocar-se no lugar do outro é algo que deveria fazer parte da nossa rotina. Todos os dias escolher um momento, nos desprender de nossas certezas e tentar inverter os papéis. Simplesmente imaginar como a vida seria se, ao invés de estarmos aqui, estivéssemos do outro lado. Seja lá de que lado for. Um exercício de humanidade que a cada dia está mais raro – e que, por consequência, precisamos mais.

A Prefeitura de Jundiaí usou esse exercício de forma muito bacana durante a Semana do Trânsito, no final de setembro. Ao invés de dizer pela enésima vez que a vaga reservada a deficientes físicos (e também a idosos, embora não tenha mencionado isso) era exclusiva e não devia ser usada em hipótese alguma por quem não tem esta especificidade, ela inverteu o jogo de forma criativa.

Em um estacionamento qualquer, todas as vagas destinadas a carros foram ocupadas por cadeiras de rodas. E placas davam a desculpa esfarrapada que a gente se acostumou a achar que é aceitável: “É só um minutinho”. Um sacolejo no motorista que acha que pode dispor daquele espaço seja lá por qual motivo for.

Uns dias depois, outra iniciativa me chamou a atenção – dessa vez em Joinville. A ideia era muito simples. Tão simples que chega a assustar. Imagine que o “normal” fosse ter uma determinada deficiência física. E a “deficiência” fosse o nosso atual padrão de normalidade. Com esta proposta um tanto inusitada, o Grupo de Teatro Libração lotou o Galpão da Ajote há algumas semanas.

O grupo, que é composto de surdos, encenou a peça “Mundo Invertido”, um mundo onde ninguém ouvia. Ouvir era uma anomalia rara, algo que fugia do padrão e, como tudo o que foge do padrão, visto com estranheza. Quem assistiu se surpreendeu. Quem perdeu, perdeu. A peça já saiu de cartaz. Espero que seja retomada no próximo ano, pois essa reflexão deve ser estimulada sempre.

O hábito de colocar-se no lugar do outro podia ser estendido a todas as áreas da vida. Podia ser ensinado nas escolas até que se tornasse algo tão arraigado que as pessoas já saíssem de casa com ele. Algo assim tão banal como se vestir ou escovar os dentes depois das refeições.

Ele faz com que a gente se desloque do nosso lugar de conforto e olhe as coisas sob outra perspectiva. Sob uma perspectiva de tolerância, de compreensão e, principalmente, de respeito.

Abaixo os links para você saber mais sobre a campanha da Prefeitura de Jundiaí e a peça “Mundo Invertido”, do Grupo de Teatro Libração

https://tribunadejundiai.com.br/cidades/jundiai/e-so-um-minutinho-cadeiras-de-rodas-ocupam-vagas-no-centro-de-jundiai/

https://omirantejoinville.com.br/2019/09/18/grupo-de-teatro-libracao-estreia-novo-espetaculo-neste-fim-de-semana/

 

*Maria Cristina Dias é jornalista e escritora, membro da Academia Joinvilense de Letras

www.mariacristinadias.com.br

(Foto: Divulgação)

1 Comment

  1. Lise Steigleder Chaves disse:

    Parabens Cris!!!! Reflexoes que nos levam a rever nossos desejos, nossos limites e nossas potencialidades!

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