Economia criativa: uma forma de Joinville gerar renda e desenvolvimento através da cultura

Grupo de dança na escadaria do Centreventos Cau Hansen em Joinville

Economia criativa é tema da palestra de abertura da 7ª Conferência Municipal da Cultura de Joinville


Por Patricia Gaglioti
Equipe Fazer Aqui

Grupo de dança nas escadarias do Cau Hansen, em Joinville.
Grupo de dança durante o 36º Festival de Dança de Joinvilleb (Foto de Mauro Artur Schlieck/Divulgação)

Começa nesta sexta-feira (30/8) a 7ª Conferência Municipal da Cultura de Joinville. O evento, que ocorre na Casa da Cultura, reúne profissionais do teatro, da música, da dança, da formação em cultura e vários outros. O objetivo é discutir políticas públicas para o setor cultural em Joinville. O acesso é gratuito e aberto a toda a comunidade, mediante inscrição pela internet ou no local, no dia. As discussões avançam durante todo o sábado (31).  

Durante os dois dias ocorrem palestras e rodas de conversa focadas em três temas. São eles: “Cultura, economia criativa e desenvolvimento sustentável”; “Plano Municipal de Cultura – metas e proposições”; e “Cenário, estratégias e proposições para políticas, gestão e produção cultural”.

A palestra de abertura tem como tema “Cultura, economia criativa e desenvolvimento sustentável”. O palestrante é Décio Coutinho, especialista em gestão e políticas culturais, economia criativa e organizações criativas. Décio tem vasta experiência nesta temática e é reconhecido como um dos mais importantes produtores culturais no Brasil.


Economia criativa é a economia do século 21


Mas, afinal, o que é economia criativa? É um sistema econômico de atividades baseadas na cultura, no conhecimento e no capital humano. Na opinião de Décio Coutinho, a melhor definição de economia criativa seria a união entre cultura, economia e tecnologia.

O Brasil é conhecido como um país extremamente criativo. Os brasileiros têm essa característica muito forte. O que precisa ser superado no país, segundo Décio, é como trabalhar essa criatividade para gerar negócios e ser um diferencial competitivo para o Brasil.

“Em um cenário de desemprego como o que vivemos atualmente no Brasil, ela é extremamente empregadora e pode ser uma solução estratégica adotada por cidades, regiões e países para o desenvolvimento local”, afirma Décio.

É o que fazem cidades como Lisboa e a Cidade do Porto, ambas em Portugal. Ou Barcelona, com um patrimônio cultural rico de museus, arquitetura, festas populares. No Brasil, são exemplos João Pessoa, na Paraíba, considerada cidade mundial do artesanato; e Santos, em São Paulo, com destaque para produções audiovisuais, entre várias outras.


Impactos da economia criativa


De acordo com Décio, já existem vários estudos sobre o impacto da economia criativa no Brasil. Em alguns casos, como o de grandes eventos, cada R$ 1 investido na atividade acaba virando R$ 40 devido à movimentação econômica e financeira ao redor. Além disso, existem outras questões que são difíceis de serem medidas, como o bem-estar social, a alegria e as transformações provocadas pelas atividades da economia criativa na população local.

No cenário atual do Brasil, Décio vê uma série de dificuldades por conta de cortes em recursos em áreas da ciência, tecnologia, cultura. Isso acaba, na visão do especialista, prejudicando muito o desenvolvimento da economia criativa.

“Não adianta você ter excelentes artistas criativos se você não tem um ambiente, uma cidade que não tenha espaços para que essa criatividade possa fluir. E não adianta também ter espaços, ter talentos, mas não ter uma economia que possa dinamizar o desenvolvimento econômico dos setores da economia criativa”, pontua.


Distrito Criativo em Joinville


Em Joinville, a Secretaria de Planejamento Urbano e Desenvolvimento Sustentável (Sepud) pretende finalizar até novembro um estudo para a realização de um distrito criativo em Joinville. A ideia é incentivar que empresas da economia criativa se estabeleçam em locais da região central da cidade.

Segundo Gabriel Cabral, coordenador de desenvolvimento econômico e sustentável da Sepud, depois de estabelecido esse distrito a intenção é promover eventos, fortalecer o segmento e levar as pessoas para ocupar a região central. O projeto faz parte do programa de requalificação do centro da cidade, lançado neste ano pela Sepud.

Além disso, a secretaria estuda conceder incentivos fiscais para abertura de empresas do ramo da economia criativa. A ideia seria reduzir a alíquota do ISS (Imposto sobre Serviços) de 7% para 3%, nos mesmos moldes do programa Pró-Empresa.

Conforme Gabriel, a economia criativa tende a ser uma fonte de riqueza para o município. “Estamos pensando como a cidade pode deixar o rótulo de Manchester catarinense para que a cidade seja reconhecida também por sua inovação e não somente pela indústria”, afirma. Manchester é uma cidade da Inglaterra conhecida por ser um centro industrial. Joinville ganhou esse título por causa da participação expressiva da indústria na economia da cidade.

No entanto, desde o ano de 2012 a matriz econômica de Joinville não é mais a industrial. O setor de serviços passou a ser economicamente o mais representativo da cidade. Por isso, a intenção de incentivar esse setor econômico, mas também a inovação dentro da indústria.


O exemplo do Festival de Dança


Ainda não há por parte da Secretaria de Planejamento Urbano e Desenvolvimento Sustentável um levantamento do tamanho da contribuição financeira das empresas da economia criativa para Joinville, principalmente através do ISS. A expectativa é que até outubro a Sepud tenha a informação.

Mas é possível ter ideia da quantidade de recursos que a cidade pode levantar através do setor cultural a partir de alguns eventos. O maior e mais conhecido deles é o Festival de Dança de Joinville.  

Em sua 37ª edição, neste ano, o evento atraiu mais de nove mil pessoas. Isso é o dobro da quantidade que colocou o evento no Guinness Book, em 2005, como o maior festival do mundo em número de participantes.  

A venda de ingressos em 2019 cresceu 8% em relação ao ano passado, somando mais de R$ 605 mil. Como a grande maioria dos participantes é de fora da cidade, o evento ainda provoca o aquecimento da rede hoteleira, dos setores gastronômico e turístico de Joinville e região.   

A taxa média de ocupação dos hotéis durante o Festival de Dança é de 90%. das vagas disponíveis. O dado é do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similiares de Joinville e Região (VivaBem). A média de ocupação anual em Joinville, sem eventos, fica em torno de 50 a 55% do total disponível.

“Está mais do que comprovado que um evento deste porte gera negócios, economia e impostos para a cidade”, afirma Guilherme Kulkamp, presidente do VivaBem. O movimento não fica restrito aos hotéis. O setor gastronômico também aquece no período. “Além do turista, a gente sente que o próprio joinvilense acaba saindo também. Esse evento tira as pessoas de casa”, explica. 

Os recursos gerados pelo aumento da demanda nas redes hoteleira e gastronômica, por exemplo, voltam para a cidade através de impostos, especialmente o ISS.


Feira da Sapatilha


Considerada a maior feira do gênero da América Latina, a Feira da Sapatilha atrai expositores de toda parte do Brasil. Neste ano, foram 120 estandes de roupa, artesanatos, gastronomia. A previsão da Receita Estadual é de que a Feira tenha tido um faturamento superior a R$ 3,5 milhões.

O valor é calculado com base na arrecadação do ICMS (Imposto sobre Operações de Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços), que é de competência do Estado. No entanto, esse montante considera apenas os 46 expositores que são de fora de Santa Catarina.

Isso porque aqueles que são do Estado não pagam uma guia exclusiva de ICMS específico para a Feira. O imposto referente às vendas no evento fica incluso na taxa que a empresa paga mensalmente para o Estado uma vez ao mês. Isso significa que o valor deve ter passado dos R$ 7 milhões. Mesmo sendo um imposto estadual, uma porcentagem do ICMS volta ao município.


Eventos menores também aquecem economia

2º Festival de Corais de Joinville. Homem no teclado. Coral se apresenta em Joinville.
A 2ª edição do Festival de Corais ocorreu no mês de agosto, em vários locais de Joinville. Foto: Alan Crus.

A movimentação financeira provocada pelo setor cultural não é exclusiva dos grandes eventos da cidade. Os menores e de abrangência local também contribuem para o incremento da economia.

A segunda edição do Festival de Corais de Joinville, que ocorreu de 9 a 18 de agosto, movimentou cerca de R$ 130 mil. O valor inclui pagamento de fornecedores e prestadores de serviços, empregos e trabalhos temporários e tributos, além de despesas de hotel, traslado e alimentação de 14 grupos que vieram de fora da cidade para participar do evento. O Festival reuniu 44 grupos e 1.350 coralistas.

“O desenvolvimento sustentável de uma cidade e da cadeia de serviços culturais e artísticos não pode estar pautado apenas em grandes eventos, porque eles são pontuais”, afirma Iraci Seefeldt. Iraci é jornalista, sócia-fundadora e diretora administrativa do Instituto de Pesquisa da Arte pelo Movimento e integrante do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Joinville.

Eventos como O Festival de Corais, o Verão Teatral ou outros que não tenham o tamanho da abrangência do Festival de Dança também incrementam a economia. Essas iniciativas envolvem produção de cenografia, figurinos, composição de trilhas sonoras, produção, luz e uma gama de outros serviços que também incidem na arrecadação do ISS e retorna para o município. Além de fomentar renda para os envolvidos, que também são consumidores.

“Nós temos a cidade com a maior população do Estado, temos um potencial consumidor enorme, mas nós não temos a cultura de consumir cultura”, afirma Iraci. “Joinville vem de uma formação industrial, em que os bens de consumo diretos, palpáveis são muito mais estimulados. O consumo desses bens é muito mais estimulado do que o consumo de bens imateriais”, completa.

Por isso, ela vê editais de fomento à cultura como mecanismos importantes para tornar a cadeia produtiva sustentável. O próprio Festival de Dança de Joinville tem entre 25 e 28% de seus recursos advindos da Lei de Incentivo à Cultura, antiga Lei Rouanet.

“Isso as empresas, as instituições e o poder público em Joinville podem fazer de prático: não só dar o peixe, mas ensinar a cidade a pescar e fazer a valoração da nossa produção artística e cultural”, finaliza Iraci.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *