Educação de Joinville é referência em cultura de sustentabilidade – Unidades municipais aderem aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU

A Escola Municipal Avelino Marcante, no bairro Bom Retiro, colocou os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU em painel no pátio. (Foto: Anderson Alberton)

Por jornalista Patrícia Gaglioti
Equipe Fazer Aqui


Era setembro de 2015, quando chefes de Estado e de governo e altos representantes de países do mundo inteiro se reuniram na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, para comemorar os 70 anos de existência da organização e adotarem formalmente uma nova agenda de desenvolvimento sustentável, a chamada Agenda 2030.

Esta agenda nada mais é do que o reconhecimento e o consenso entre os países sobre os desafios a serem enfrentados para que o mundo se desenvolva de forma sustentável. Isso inclui o desenvolvimento das pessoas, da economia e do meio ambiente.

Portanto, a Agenda 2030 é um conjunto de programas, ações e diretrizes que serve para orientar os trabalhos da Organização das Nações Unidas e dos 193 países-membros, entre eles o Brasil, rumo ao desenvolvimento sustentável.

Confira os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU:


Programa Reinventando o Espaço Escolar

Cinco anos antes de a ONU estabelecer os novos objetivos de desenvolvimento sustentável, Joinville implantou um programa em sua educação infantil que já pensava na escola como um lugar de sustentabilidade.

Com base nas diretrizes nacionais curriculares da educação infantil, estabelecidas no ano de 2009, os professores e gestores da educação infantil de Joinville levantaram uma série de questões. A primeira delas foi: “Quais espaços estavam sendo oferecidos dentro das escolas para as crianças aprenderem?”.

Percebendo que havia uma divisão entre os espaços de aprender (as salas de aulas) e os de brincar (áreas externas dos CEIs), Joinville criou, em 2010, o programa Reinventando o Espaço Escolar, a fim de oferecer às crianças maior interação com a natureza e diversas possibilidades de aprendizagem.

“A partir deste programa, começamos a trabalhar com o conceito de desemparedar as crianças, ou seja, tirá-las das salas de aula e começar a ter experiências externas educadoras”, conta Marlene Zimmer, professora da rede municipal de Joinville e integrante do Centro de Formação Continuada Educação para a Sustentabilidade, da prefeitura.

Foi a partir do “Reinventando o Espaço Escolar” que os Centros de Educação Infantil (CEIs) começaram a transformar suas hortas (usadas para complementar a merenda escolar) em hortas pedagógicas (usadas para ensinar as crianças), desenvolver sistemas de captação da água da chuva e explorar áreas externas dos CEIs como parte do aprendizado das crianças.

Na prática, desde 2010 a educação infantil de Joinville já desenvolve práticas e ações voltadas para o desenvolvimento sustentável, correspondentes aos objetivos que centenas de países do mundo estabeleceram, em 2015, para serem alcançados.

No último Plano Municipal de Educação – documento que apresenta diretrizes e metas a serem alcançadas na educação municipal até 2024 -, elaborado no ano de 2015, Joinville tornou o programa Reinventando o Espaço Escolar uma política pública do município, garantindo que mudanças no governo não comprometam a continuidade do programa. O plano também previu a expansão do “Reinventando o Espaço Escolar” as 85 escolas da rede municipal de ensino, e não apenas nos CEIs.


Ações para a sustentabilidade

Alunos do CEI Pequena Sereia e a professora Fernanda Costa Biffarate conversando com moradores do Costa e Silva sobre combate à dengue. Foto: Patricia Gaglioti.

O Centro de Educação Infantil (CEI) Pequena Sereia, no bairro Costa e Silva, é um dos 70 CEIs de Joinville. A unidade atende a 130 crianças, do maternal 2 (de 3 para 4 anos) ao 2º período (de 5 para 6 anos), divididas nos turnos da manhã e da tarde.

Na quarta-feira, dia 17 de abril, a turma da tarde do 2º período saiu em caminhada com a professora Fernanda Costa Biffarate e a auxiliar de direção Izabella Cardoso para entregar aos moradores da região panfletos com orientações de prevenção à dengue.

A ação é realizada há cerca de três anos, em parceria com a Unidade Básica de Saúde da Família Willy Schossland, que cede aos CEIs os materiais para serem entregues. Segundo Juliana, as crianças levam para casa os panfletos com as orientações, mas o CEI opta por realizar o passeio entre as casas próximas porque as crianças se mobilizam e se divertem. “E se divertindo, elas aprendem”, pontua Juliana. Ou, como diz a auxiliar de direção Izabella: “O mundo não está em um quadrado (a sala de aula). O mundo está lá fora”.


O controle de pragas e qualquer tipo de agente que possa causar doenças, como o mosquito Aedes aegypti, causador de doenças como a dengue, é uma medida de saneamento básico. O trabalho de conscientização que as crianças do CEI realizam é, portanto, educação para o saneamento básico. Dentre os 17 objetivos de sustentabilidade da ONU, oferecer “água potável e saneamento” para as populações é um deles.

Além das ações educativas para combate de doenças como a dengue, o CEI Pequena Sereia também recebe uma vez ao mês a visita de um agente de saúde para acompanhar e orientar a escovação dos dentes das crianças. Uma vez por semestre, elas passam por exames com dentistas no próprio CEI. Já o professor de educação física da unidade faz o acompanhamento e o controle do peso e da altura dos alunos a cada seis meses.

Tanto essas ações quanto a promoção de espaços mais acolhedores na escola vão ao encontro do terceiro objetivo de sustentabilidade elencado pela ONU: “promoção de saúde e bem-estar”. Segundo a Organização Mundial da Saúde, saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças.

Como pontua a secretária de educação de Joinville, Sônia Victorino Fachini, os CEIs e as escolas do município já possuem em suas práticas muitos dos objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS). “Todas as nossas unidades agora aderem aos 17 objetivos da ONU. Esse próximo passo serve como articulação dos espaços educadores, iniciados com o nosso programa Reinventando o Espaço Escolar, com os ODS”, afirma Sônia.


Capacitação de professores e gestores da educação

Em 2018, a Secretaria de Educação criou o Centro de Formação Continuada Educação para a Sustentabilidade, com o objetivo de institucionalizar o programa Reinventando o Espaço Escolar em todas as escolas municipais de Joinville.

Por isso, desde o segundo semestre do ano passado, professores e gestores da rede municipal de educação estão participando de uma capacitação com total de 160 horas sobre o programa e os objetivos de desenvolvimento sustentável para aplicarem em suas escolas.

Na avaliação de alguns profissionais da educação, o treinamento e o conhecimento dos objetivos de sustentabilidade estão reforçando e dando mais sentido às práticas já executadas pelas escolas. Para Marlene Zimmer, professora e membro do Centro de Formação da Prefeitura, essas ações escolares são uma forma de contribuir para a solução de problemas globais, agindo na comunidade próxima através da educação.

Segundo Marlene, a reinvenção dos espaços escolares deve ser um processo realizado em conjunto com os estudantes das escolas municipais. “O espaço educador deve ser pensado partindo do interesse do aluno, o que eles querem para a escola”, afirma.

Por isso mesmo, o programa Reinventando Espaços Escolares ocorre de formas diferentes em cada escola. Não há exatamente um padrão a ser seguido, mas sim modelos que podem ser adotados, considerando sempre o aluno como um protagonista do processo.


Hortas Pedagógicas

Segundo a professora do Centro de Formação, Lesani Zerwes Becker, a criação das hortas pedagógicas foi uma das primeiras formas de se reinventar os espaços escolares.

Quando surgiram, as hortas tinham o objetivo de complementar a merenda escolar. A partir do programa Reinventando o Espaço Escolar, ela se tornou pedagógica, ou seja, usada para ensinar e estimular a participação dos alunos.


Cultura de ateliê

No entanto, apenas adotar novos espaços de ensino não basta. De acordo com a professora Rosane Mari dos Reis, também do Centro de Formação, é preciso saber de que forma trabalhar com as crianças.

Rosane orienta os professores da rede municipal em relação ao uso das artes como forma de unir diferentes linguagens do conhecimento, com a inteligência e pensamento lógico.


O CEI Pequena Sereia realizou um trabalho em conjunto com o artista Ademar César, no ano passado, que serve como exemplo do uso da arte no processo de aprendizagem das crianças.


Joinville como referência

José Vicente de Freitas é consultor da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e professor universitário.

A primeira vez que esteve em Joinville foi no ano de 2012. Na época, ele era coordenador geral de educação ambiental do Ministério da Educação (MEC) e foi convidado para conhecer as experiências do ensino infantil em relação à cultura da sustentabilidade.

O professor com pós-doutorado em Ciências Ambientais pela Universidade de São Paulo (USP) ficou surpreso com o que viu na cidade. “Joinville é um case de sucesso na implantação da cultura da sustentabilidade, com o brincar, com os espaços externos como educadores”, afirma José Vicente.

No mês de abril, o consultor da Unesco esteve em Joinville para participar, como instrutor, da capacitação aos professores e gestores do ensino fundamental sobre os objetivos de sustentabilidade da ONU para a ampliação do programa Reinventando o Espaço Escolar nas escolas da rede municipal.

Segundo José Vicente, Joinville tem as condições objetivas de se tornar uma cidade que se reinventa e reinventa sua economia a partir de processos sustentáveis. “O que vemos aqui é que a educação municipal está preparando os cidadãos e conduzindo a cidade para ser uma cidade do futuro”, afirma.


Segundo José Vicente, Joinville tem as condições objetivas de se tornar uma cidade que se reinventa e reinventa sua economia a partir de processos sustentáveis. “O que vemos aqui é que a educação municipal está preparando os cidadãos e conduzindo a cidade para ser uma cidade do futuro”, afirma.

A secretária de educação de Joinville, Sônia Victorino Fachini, chama de cidadania de sustentabilidade o que a rede municipal de educação está construindo. “Uma cidadania que tem no cerne do seu conhecimento e desenvolvimento a sustentabilidade. De bebês até quando saem saem das nossas mãos, no nono ano, essa criança já terá consigo a importância de pensar a comunidade em que vive com os cuidados necessários para um futuro melhor para todo mundo”, afirma.

Os 17 objetivos elencados pela ONU para serem alcançados até o ano de 2030 podem servir como um planejamento estratégico para as cidades se desenvolverem. Para isso, é preciso que não apenas a educação, mas também outras secretarias estejam alinhadas com o trabalho que está sendo desenvolvido.

“Se esse aluno que está sendo preparado na rede municipal de ensino chega ao ensino médio e não encontra o mesmo cenário para se desenvolver ou chega no mercado de trabalho e não encontra espaço para a inovação, a cidade estará perdendo esse cidadão e também o investimento inicial feito com ele”, pontua.

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