EntreAsLetras – Alguma coisa valeu a pena

Por Donald Malschitzky*

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Uma mistura de idealismo, certa confusão sobre a melhor forma de tratar o assunto, falta de informações mais completas e, como não pode faltar, o “oficialismo” que mais se preocupava em ditar regras do que em resolver o problema, mais doses de hipocrisia, preconceito e falta de caridade, e é possível imaginar as águas nada tranquilas onde navegávamos no início dos anos 1990, em São Bento do Sul e região, onde tratávamos de dar o melhor de nós para prevenir o avanço da Aids.

Escolas, empresas, discotecas (é assim que se chama?), cárceres, prostíbulos, vias públicas, rádios, jornais, tudo era palco para nossa pregação nada santa, no dizer de muitos.

Voluntariamente, nos expúnhamos, sujeitos a críticas ferozes e reconhecimentos até constrangedores, como o da prostituta que passou a palestra em atitude de confrontação e, ao final, pediu desculpas e pediu material para levar para as colegas de outra cidade; a jovem que, constrangida, assistiu ao “papo minuto” – que durava não mais que três minutos, num evento em ruas do Centro – e depois voltou para pedir preservativos; os adolescentes que, quase como se fora mágica, participavam das palestras com atenção e perguntas pertinentes.

Talvez por falta de tato, talvez pela premência em prevenir, dizíamos que Aids mata, e não estávamos errados na mensagem, embora pudéssemos ser mais sutis. Logo, aprendemos a equilibrar o alerta com as boas novas sobre tratamento que surgiram. Apesar da forma meio rude, trabalhávamos fortemente no combate ao preconceito que, se hoje ainda é grande, na época significava a condenação ao inferno em vida ou depois da morte.

Salvamos vidas ou, ao menos, melhoramos a vida das pessoas?  Creio que sim, pois atingimos diretamente a milhares e, na pior das hipóteses, nosso entusiasmo tinha que contagiar alguém.

Apesar de todos os avanços na prevenção no mundo, mais de 100 mil pessoas foram infectadas pelo HIV na América Latina no ano passado, e o Brasil teve um aumento de 21% no número de infecções entre 2010 e 2018. Estarrecedor é que cerca de um terço desses casos é de jovens de 15 a 25 anos de idade. Jovens que se creem impunes a perigos, principalmente àqueles que não estão na cara.

Hoje, 2 de dezembro, é Dia Mundial de Luta Contra a Aids; datas não servem para nada, mas se ajudarem a fazer as pessoas a refletir que estatísticas não são apenas números, mas vidas, e que isso aconteça principalmente dentro do ambiente familiar, sem preconceitos de qualquer tipo, alguma coisa valeu a pena.

*Donald Malschitzky é escritor

(Fotos: Divulgação)

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