EntreAsLetras – Falando em perdão

Por Donald Malschitzky*

Se há uma palavra mal empregada, essa palavra é perdão.  Começa pela negociação: “Eu perdôo se você prometer…” e vai até a completa desglamurização (agora a palavra existe, viu, Word?) do conceito, bem mais nobre do que o vulgar “desculpe”.

O amor e a religião são os maiores depositários do perdão. Baús e mais baús cheios, prontos para serem usados como sinal de reconciliação, chamego, desculpa esfarrapada, concessão acusatória ou arma. Quer algo mais charmoso do que namorados se pedindo e se concedendo perdão? Vale mais do que jura de amor eterno ou casamento com príncipe encantado, se bem que, com os príncipes que andam no pedaço, isso não signifique muita coisa! De qualquer forma: “Perdão, amor” é o suprassumo das declarações. Se vier com uma lágrima furtiva, então, não tem quem segure. Mas só vale, mesmo, se houver sinceridade de intenções, não tanto para perdoar, em si, mas pelo charme que carrega.

Se, no amor, serve para construir, solidificar, curar, na religião passou a ser cada vez mais um açoite a castigar os pretensos pecadores. Uma moeda muito cara, que fica nas mãos de poucas pessoas que, em nome de Deus e mediante provados arrependimentos de pecados inventados por pregadores nem sempre bem honestos, é fornecida em pequenos valores para garantir a escravidão dos “agraciados”. Usam-no para mandar recados mal elaborados, assustar os pobres ouvintes que acreditam na missão divina de quem quer que assim se apresente e, principalmente, para exercer seu poder.

Na teoria, o cristianismo, por sua essência, instituiu o substituto definitivo do perdão do Antigo Testamento, esse sim, moeda de troca e só concedido após demonstrações públicas e explícitas de arrependimento e humilhação. O perdão do cristianismo, na teoria, ao menos, já que, na prática não é bem assim, é o do amor, da dádiva, da caridade. Independe de merecimento; existe devido à grandeza da alma. É um presente de quem perdoa, não uma conquista de quem é perdoado.

Mas, vendo as aberrações que grassam por aí, melhor ficar com Mário Quintana: “Perdoas…és cristão…bem o compreendo…/ E é mais cômodo, em suma./Não desculpes, porém, coisa nenhuma,/ Que eles bem sabem o que estão fazendo…”

 

*Donald Malschitzky é escritor

(Foto: Divulgação)

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