EntreAsLetras – Há mais tempo do que se pensa

Por Donald Malschitzky*

“Coisa de eco-chato”. “Começou há uns 30 anos”. “Modernidade boba”. “Só a esquerda que vem com essas bobagens”. 

Para não importunar os poucos leitores, paro por aqui, embora pudesse usar todo o espaço da crônica somando ditos de “entendidos” sobre a conservação do meio ambiente, todos completamente fora da casinha.

O ser humano não é tão burro assim, e a preocupação com o cuidado com o meio ambiente é bem mais antiga do que sonham as vãs filosofias. Que tal voltarmos quase quatro mil anos? Será uma viagem e tanto, cheia de surpresas.

A produção de grãos, especialmente de trigo, dependia do regime de cheias periódicas do rio Nilo que trazia nutrientes para as plantações no antigo Egito. Eventuais descompassos significavam fome, e os egípcios, por conta disso, criaram toda uma compreensão da Natureza que incluía, entre outras coisas, o respeito a determinados animais aos quais davam excepcionais poderes. Matar algum desses animais sagrados significava duras penas ao seu autor: a morte deliberada de um íbis – grande pássaro que se alimenta de cobras – significava pena de morte.

Também no Egito antigo, a pureza de uma pessoa estava ligada ao respeito à Natureza, como consta num trecho do Livro dos Mortos: “Não matei os animais sagrados, não sujei a água, não usurpei a terra, nunca apanhei com rede os pássaros dos deuses, sou puro, ó Grande Osíris”.

O Código de Hamurabi (por volta de 3.500 anos atrás) estabelecia que se alguém cortasse uma árvore da terra de um vizinho sem autorização deste, deveria plantar outra no lugar ou teria a mão cortada.

Entre 1.120 e 230 a.C., na China, era obrigatório o reflorestamento de áreas desmatadas, e o primeiro documento de Direito Romano, quase 500 anos a.C., já estabelecia que era preciso prevenir-se para a devastação das florestas.

Platão, também no Século IV a.C., chamava a atenção para a importância das florestas, o equilíbrio do ciclo das águas e a proteção dos solos contra a erosão. Mais ou menos na mesma época, o Imperador Asoka, na Índia, mostrava grande preocupação com a proteção das florestas, dos animais e dos peixes, e Marcus Túlio Cícero – 105 a 43 a.C.) considerava inimigos do Estado quem destruísse florestas na Macedônia.

Isso tudo e nem chegamos ao início da colonização do Brasil, que também tinha leis bem mais severas do que as de hoje para quem praticasse determinados crimes contra a Natureza, como queimadas, por exemplo. Coisa de eco-chatos.  

*Donald Malschitzky é escritor

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