EntreAsLetras – Hein?

Por Donald Malschitzky*

Experimente: fique a uma distância média de alguém, de costas para ela, de preferência com o rosto voltado para o chão e diga-lhe qualquer coisa em voz baixa. A possibilidade de ela lhe perguntar o que você disse é de algo como 100%. Se não o fizer, as explicações são muitas: tem um ouvido apuradíssimo, o assunto não lhe interessa ou você não lhe interessa e não se importa mesmo com o que diz.

Digamos que ela se interesse, seja muito educada e lhe diga algo como: “Perdão, não entendi”. Não dê o braço a torcer, continue no mesmo lugar, usando o mesmo tom, mas, para garantir a continuidade da experiência, murmure: “Analisaram o ácido desoxirribonucleico do ornitorrinco”.

“Como?”. Apele para uma solução manjadíssima, diga: “Torrrinco”. Se não ouvir um “hein?” mais enfático, é porque você está com a pessoa mais calma do Universo. Que tal um pouco de adrenalina? Responda: “Nada, não”. Quando sair do pronto-socorro, me conte o que aconteceu.

Sou um entre milhões de brasileiros que sofre de deficiência auditiva. Não é literalmente auditiva, pois nos testes de audição ainda passo com notas razoáveis, mas tenho o que chamam de “dificuldade de discriminação auditiva”, ou seja: é-me difícil separar os sons que vêm misturados e, mais ainda, não bem definidos. Eu sou o cara do “hein”.

Levei tempo para saber disso, embora sempre tivesse dificuldade em decifrar letras de músicas, a não ser que fossem cantadas “a capela”, e, instintivamente, procurasse ficar de frente a meus interlocutores para ler-lhe os lábios. Nunca foi algo desesperador, pois a gente vai se acostumando e achando soluções sem se dar conta do problema. Mais ou menos como esticar o braço para conseguir ler. Uma fonoaudióloga explicou-me que o problema não é nos ouvidos, mas no cérebro, que não sabe separar certinho todos os sons. Explicação dada, não adiantou coisa alguma, pois nunca fiz a fisioterapia(!) que me sugeriu fazer.

De qualquer forma, serviu para entender melhor certas deficiências que as pessoas têm e a verificar o descaso que temos com as dificuldades dos outros, como a impaciência com quem sobe a escada devagar na nossa frente, a exasperação por não entenderem o que dizemos, mesmo que o pronunciemos mal e estejamos longe, a ironia com que tratamos quem não faz as coisas com a rapidez e a eficiência que jugamos “normais”… e por aí vai. E só um “hein” não resolve, afinal, de perto ninguém é normal.

*Donald Malschitzky é escritor

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