EntreAsLetras – Ideiafix

Por Donald Malschitzky*

Asterix, o herói gaulês de histórias em quadrinhos, tinha um grupo de amigos com características bem marcantes e divertidas, e todos eram obstinados. Os quadrinhos relatam com humor a luta em defesa da Gália sendo invadida pelos romanos de 58 a.C. a 51 a.C. Um dos personagens era Idéfix, batizado de Ideiafix entre nós, um cachorro que latia desesperadamente cada vez que uma árvore era derrubada. 

Tirando o aspecto de defesa ambiental, o cachorrinho fez milhares (milhões?) de discípulos em nosso Brasil, só que não é por causa das árvores que fazem alarde, mas com notícias que se julgam a última azeitona da pizza servida nas redes sociais.

Devem passar o dia garimpando essas notícias e se crêem os alter egos de todos os editores da mídia nacional, pois decidem não apenas o que pode ou não ser publicado, como postam a decisão já tomada por editores de qualquer jornal, rádio, emissora de TV, embora os mesmos nem saibam do assunto.

Mas os alter egos sabem, pois carimbam: “A mídia não vai divulgar” ou coisas assim. Imediatamente entram em cena os milhares de outros Ideiafix que compartilham sem qualquer critério e a bobagem vira verdade para um montão de gente.

Um amigo meu é pródigo em publicar esse tipo de “notícia”, e quando pergunto de onde tirou ou esclareço a origem, vem a resposta que tem um potencial perigoso, para dizer o mínimo: “Eu só copiei”. Então tá, né, mas que tal checar antes? 

Ao fazer isso, chega-se a um padrão mais ou menos homogêneo, com ao menos uma das características a seguir: são notícias velhas que foram requentadas e publicadas como se fossem atuais – estas são a imensa maioria; são atuais e foram amplamente divulgadas pela mídia; não apresentam qualquer preocupação com a verossimilhança; buscam claramente jogar alguma instituição – as Forças Armadas, de preferência – contra determinados meios de comunicação ou a mídia em geral.

O direito à informação é fundamental para que haja democracia, mas informação é informação e quando é manipulada, deixa de ser um direito para se transformar em instrumento de discórdia. Também dá para chamar de veneno traiçoeiro, não importa quem o aplique.

*Donald Malschitzky é escritor

(Foto: Divulgação)

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