EntreAsLetras – Mágicos apitos

Por Donald Malschitzky*

Emprestando a dúvida do ovo e da galinha, pergunto-me: o que veio antes, o assobio ou o apito? Deve ter sido o assobio, pois é mais natural, mas vai saber se não foi a sogra de algum homem das cavernas que soprou um gomo de taquara rachada, inventando, ao mesmo tempo, o apito e a expressão “voz de taquara rachada”.

O que não há dúvidas é que o apito dá poder a quem o utiliza. Nossos ancestrais caçadores mais preguiçosos, em vez de se esbaldarem atrás da caça, ficavam amoitados, imitando os sons das aves e de alguns bichos que se aproximavam e eram facilmente abatidos. Aprimorando os sons dos apitos, tinham sempre caça farta e eram os mais admirados, principalmente pelo sexo feminino.

Evoluíram, e hoje usam a buzina de seus carros para a mesma coisa, mas não com os mesmos resultados, pois as mulheres já o fazem com muito mais eficácia.

Juiz de futebol é um dos exemplos mais claros do poder do apito – hoje, quase coadjuvante do VAR. Temos certeza de que aquele jogador parrudo que quase encosta seu nariz no do juiz para reclamar vai arrancar o apito dele e…, mas nada disso acontece; em segundos, baixa a bola e vai para seu canto, igual a cãozinho arrependido.

Guardas de trânsito ou o equivalente: tire o apito deles para ver o que acontece. E há os que, com o instrumento, são uma ameaça, no mínimo, ao fluxo do trânsito. Em Curitiba, num cruzamento ao lado de uma escola, um deles. Sempre impecável em seu uniforme completo, mesmo que o sol esteja torrando. Não tem mais de 1,50 m, mas postura de quem se impõe. Apita o tempo todo e mexe os braços. Quem passa lá seguidamente já aprendeu que, para evitar acidentes, é melhor não seguir sua orientação, mas ouve seu apito.

Dia desses, em frente a uma grande empresa onde passam duas pistas que são cruzadas por uma terceira, dois guardas da empresa orientando o trânsito, apesar da existência de semáforos que funcionam. Mas vamos obedecer. Mandou parar, parei; mandou seguir, segui, e a fila de ônibus que vinha de minha esquerda por pouco não me reduziu à minha insignificância: o outro guarda mandou seguir quem estava na pista transversal enquanto os dois apitavam.

Em Joinville, um homem, quando vai atravessar a rua – e o faz em qualquer lugar -, não tem dúvidas: apito na boca, mão levantada e vamos em frente, apitando como se fora o senhor do trânsito. E todos param para a passagem do louco com seu apito, pois ninguém é louco de atropelar uma pessoa com tanto poder.

 

*Donald Malschitzky é escritor

(Foto: Divulgação)

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