EntreAsLetras – Netos que estragamos

Por Donald Malschitzky*

Saindo pela porta frente do setor infantil do Hospital Mount Sinai, basta atravessar a avenida para entrar no Central Park. Se for inverno, não faltarão lugares para patinar no gelo; no verão, pode fazê-lo com a variedade que quiser de patins de rodas; se for na primavera, haverá abundância de flores; e sendo outono, o espetáculo da maturidade nas folhas das árvores só não encantará aos tolos e aos insensíveis.

Parque não é sua praia? Dobre à esquerda e ande algumas quadras – acho que não passam de dez – e chegará ao Metropolitan. Se achar que a pernada foi curta, voltamos a conversar após você conhecer, digamos, 20% de suas exposições.

Daqui de casa são uns 8 mil km via aérea, mas gostaríamos – Cida e eu –  que fosse muito e muito menos, mesmo agora, enquanto escrevo e recebo a notícia de que o Mathias acabou de receber alta.

Há um pouco mais de quatro anos, foi lá, no mesmo hospital, que ele nasceu e, sem querer, nos proporcionou a primeira experiência em um hospital onde havia elevador para uso de judeus aos sábados, onde os partos são feitos no quarto, com a presença dos familiares, e as visitas ao berçário, no pouco tempo em que as crianças ficam lá, não sofrem um controle tão rígido.

Infelizmente, também foi lá que um problema no rim dele foi detectado, e também foi lá que, na semana passada, uma cirurgia teve que ser feita para resolver problema consequente. Acabo de ver fotografia dele sentado a uma mesa do hospital, jogando e aguardando autorização para voltar para casa. Sorrindo, como gosta de fazer. Ainda pela manhã, chateado, não queria nos ver.

Se tudo correr bem, em poucos dias percorrerá os milhares de quilômetros para vir ao Brasil, que adora. Esses tempos pediu à mãe para vir para cá e lhe foi explicado que tinha aula e não daria para vir; no sábado, perguntou se haveria aula; com a resposta negativa, não hesitou: “Então vamos para o Brasil”. Agora, virá, torçamos. Ele e Benjamin, seu irmão mais novo.  

Vamos nos divertir brincando de “What is that?”, quando inventamos palavras com a maior seriedade, como se sábios fôssemos. E olhando nos olhos do outro segurando a risada.

“Avós não servem para educar, avós só estragam os netos”, ouvi dia desses de uma avó plena de carinho. Talvez seja estragar, mas o que será de nossos netos sem esse “estrago”?

*Donald Malschitzky é escritor

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