EntreAsLetras – O soldado que tocava cítara

Por Donald Malschitzky*
“No dia 02 de junho de 1945 chegou a minha vez; recebi a passagem e, ao me encaminhar para pegar o trem, encontrei um soldado inglês e lhe pedi um cigarro. Ele me olhou, acendeu um cigarro, o estendeu para mim e, quando fui pegá-lo, fez um movimento e o cigarro voou por cima dele, caindo no chão. Disse: “Pode pegar”. Pensei: “Cachorro danado”. Meu trem estava para sair. Fui até o cigarro, enfiei o calcanhar em cima dele, dei um rodopio, falei: “Thank you”, pulei para dentro do trem e ele saiu”.  Isso é parte do depoimento de Ottmar Schmidt para o livro “Pequenas histórias de São Bento”. A crônica desta semana é uma homenagem a ele, que carregou esse espírito consigo.

O soldado que tocava cítara

“Pintor de telas não consegue sustentar uma família” foi o incentivo que recebeu dos pais, sendo  levado a um mestre marceneiro para aprender uma profissão que lhe desse futuro. Um armário entalhado na entrada da oficina o deslumbrou e o mestre lhe disse que para fazer algo assim, precisaria primeiro aprender a fazer um armário.
Mais de olho no que fazia o mestre do que no que ele mesmo fazia, iniciou seu mergulho no universo das artes. Observar artistas em ação para aprender como fazer certo e melhor era uma constante quando ainda era menino. Isso incluía ver seu pai fabricar ferraduras,  e, muitas vezes, quando o pai não estava, pegava algumas ferramentas e ia ao cemitério perto de sua casa, onde fazia esculturas em pedaços de mármore.
A Alemanha se preparava para uma guerra sem igual; a Juventude Hitlerista, entre outras coisas, serviu para o treinamento de jovens para que fossem futuros soldados, mas com uma abordagem bastante abrangente: voo com planadores, aulas de arte,  de marcenaria , eletricidade e assim por diante; não precisava mais para o jovem que queria ser pintor de quadros, até o dia em que, já casado com uma alemã que vivera em Joinville,  foi convocado para a guerra.
Ao contrário do sogro, que mantinha um enorme mapa na parede, marcando com alfinetes os avanços das tropas alemãs, ele não gostava de Hitler e falava para o sogro: “Não precisa fazer isso; vamos perder a guerra”. O soldado que não gostava de Hitler e dizia que perderiam a guerra foi para o “front” na Itália, onde ficou por dois anos, assumindo mais tarde a função de armeiro, o que o afastou um tanto da frente de combate, embora não evitasse que vivesse vários horrores. A Alemanha se rendera, acabou o horror e o soldado, que levara sua cítara, tocou um pouco e se despediu dela, pois era muito pesada para ser levada no longo trajeto a pé.
De volta para casa,  no que se transformou na Alemanha Oriental,  o artista recebeu uma bolsa para estudar artes. Durou pouco: no curso apresentaram um quadro de pintor russo para que o analisassem; ele, que preferia os artistas holandeses, franceses e italianos, por achar que tinham mais vida, disse-o ao professor. Bastou para o mandarem de volta para casa por “ser contra o sistema”.
Não parou: em 1953 veio para o Brasil, recomeçou seus estudos,  conquistou admiradores e provou, ao longo de sessenta e seis anos, muitos vividos em São Bento do Sul, que artistas podem viver de sua arte.
Na semana passada, Ottmar Schmidt fez mais uma arte: deixou-nos aos 99 anos. Ficou uma trajetória que não cabe numa crônica, só no coração.
*Donald Malschitzky é escritor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *