EntreAsLetras – Onde ficaram?

Por Donald Malschitzky*

“Terra não é sujeira, ela não nos suja, nós é que sujamos a Terra.” (Djatchuka Mirim)

Ela conquistou pela suavidade, explicando que na cultura de seu povo as mulheres falavam baixinho, mas quando a questão foi para o lado da preservação da natureza e o respeito à sua gente, acordou o puma de dentro da Pequena Rezadora, que é o significado de seu nome em guarani. No registro de nascimento, está Mari Escobar, como de seu marido está registrado Wilson Moreira, mas é Karai Hhe’e Garai – Espírito Rezador e Cantador. Ambos estudam pedagogia, têm uma filha adolescente e, para que ela pudesse fazer o segundo grau, mudaram-se para uma casa perto da escola, mas também da aldeia, em Araquari.

Ouvir o que esses povos têm a nos dizer, a nós, que alguns sem-noção chamam de “civilizados”, nos faz muito bem; a visão simples e sábia que têm da vida, a simbiose com a natureza, tudo tão acima da ganância que é encarada como dever das pessoas de sucesso, o “ser competitivo” como condição de “crescimento” e a maldita crença de que o homem é dono de tudo, especialmente da natureza.

Acabou a Semana do Meio Ambiente e voltamos todos aos descalabros de imensas áreas de floresta sendo destruídas, à produção desenfreada, descuidada e imoral de lixo, à poluição assassina dos rios e do ar, ao transporte egoísta e ao absoluto império da ignorância para justificar essas ações. Foi-se a semana, foram-se, foi-se a consciência, foram-se os compromissos.

Do nada, aparecem “cientistas” – hoje estou abusando de aspas, mas é necessário – que refutam os cálculos científicos de aumento de volume de água nos oceanos fazendo analogia com o gelo que colocam em seu uísque, pois este não aumenta de volume se o gelo derrete e o uísque for bebido! Não param por aí: comparam a poluição e o aumento de temperatura causada por um incêndio florestal com a poluição de seus carrões para dizer que a emissão de gases de escapamentos não é um problema, mesmo que sejam eles os causadores dos incêndios.    

Não vou, cara leitora, cansá-la com números e mais números, mas peço sua ajuda, principalmente se tiver mais ou menos perto de minha idade: cadê os riachos de nossas infâncias? As fontes onde saciávamos a sede sem medo de contaminação? Quando nossos olhos começaram a se irritar sem sabermos por quê? Onde ficaram os peixes em nossos mares? Quantas dezenas de perguntas você acrescentaria?

*Donald Malschitzky é escritor

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