EntreasLetras – Os mais de 300 que não são de Esparta

Por Donald Malschitzky*

 

“Melhor, combateremos na sombra”, responde Leônidas, o rei de Esparta, a Xerxes, rei da Pérsia, quando este lhe manda recado  dizendo que são tantas as flechas de seu exército que elas escurecerão o céu.  Xerxes quer conquistar a Grécia e conta com um exército de 250 mil homens; Leônidas, com 300 espartanos que se dispõem ao sacrifício para salvar sua nação. O filme “Os 300 de Esparta” foi lançado em 1962 e é um primor de produção e direção, mas isso é outra história, passemos à realidade, acontecendo agora, e não há nação a salvar. Noção, sim.

Enquanto escrevo, na tarde de sábado, os números de mortos (121) e desaparecidos (226) na tragédia de Brumadinho, somados, já passam bem dos 300. Transformaram-se em dados fatídicos e, à medida que o tempo passa, estatística. Eles não escolheram ir a uma batalha, apenas foram trabalhar para seu sustento e de suas famílias; não deram suas vidas por uma causa, pois a causa, nesse caso, é vil: lucrar o máximo possível gastando menos do que o mínimo necessário.

Lama por mais de 20 metros de profundidade, bombeiros exauridos sentindo-se mais aliviados quando encontram corpos, pois a experiência, o cansaço, o desânimo lhes dizem que a possibilidade de achar vida já se esvaiu.

Quem tem como lema “O amigo certo nas horas incertas”, certamente nunca imaginou que após ser o amigo certo em Mariana, com 19 mortos, seria confrontado com tragédia similar com, possivelmente, centenas de mortos, um pouco mais de três anos depois. E ninguém imaginaria que a mesma empresa, ou controladora, a Vale, seria a protagonista do desastre, numa incrível coincidência que não é coincidência.

Quantas páginas de relatórios de investigação formarão o resultado do inquérito?  A resposta, desculpe o trocadilho besta, foi jogada na lama no noticiário da primeira noite: “Os técnicos informam que a metodologia da construção da barragem é segura, e é a mais econômica”. O grifo e o espanto são meus. A conclusão é apenas esta, o restante são explicações acessórias: economizar para aumentar o lucro.

Barragem é depósito de rejeitos de mineração. “Rejeitos” vêm, obviamente, de “rejeitar” ou, nesse caso, “não servir mais”. Se não serve mais, é só despesa sem retorno, o que diminui o lucro, logo, a ordem é gastar o mínimo possível para fazer de conta que se preocupa.

 

*Escritor

(Foto: Divulgação)

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