EntreAsLetras – Que não seja um réquiem

Por Donald Malschitzky*

No intervalo entre chuvas e ventos, o anil recebeu uma flecha rubra que se divertia em sobrevoar nossa vizinhança, exibindo-se para olhos que nunca miraram uma formação de guarás em voo, nem os viram alguma vez pela lagoa de Barra Velha. Eram por volta de 30, em formação de ponta de flecha e voando como quem passeia, sem preocupação com um rumo específico. O contraste com o céu só acentuava a sensação de voar por deleite, rabiscando o céu.

Por mais de 150 anos não havia registro dessas aves, típicas de manguezais e que se alimentam de pequenos caramujos e crustáceos – daí a exuberante coloração de suas penas – na baía da Babitonga, na região de Joinville/São Francisco/Itapoá.

Ameaçadas de extinção no Paraná, o primeiro registro de sua volta à Babitonga foi feito em 2011 e já no ano seguinte descobriu-se que estavam procriando na região. Desconheço sua presença atual na região do Itapocu, mas na semana passada nos visitaram e exageraram no espetáculo. Tomara que sejam filhos que queiram enfeitar um novo lar e nos encontremos mais vezes.

Talvez o dia tivesse algo de especial para nos contar: o íris-de-praia, plantado em vaso no jardim e que demorou muito para florescer, resolveu exibir-se bem orgulhoso de si, enchendo-se de flores, e elas, por viverem um dia só, não economizaram em boniteza; é “carpe diem” mesmo, não precisa nem fazer de conta que sabe latim.

Não parou por aí: era prenúncio de primavera, um daqueles caprichos que a natureza gosta de mostrar, coincidências das quais a beleza se aproveita ou é sempre assim e nossos olhos de foco estreito se negam a ver? Se perguntássemos para a cambacica que, a poucos metros, nos ignorava em sua busca de néctar nas flores do limoeiro, possivelmente nos olharia com olhar de espanto, pois para ela basta beijar as flores e receber sua doçura; essas filosofias todas não têm a menor importância, mas ela deve saber que é bonito, pois, se não fosse assim, não inclinaria a cabeça, curiosa ao nos ver.

À noite, o mesmo noticiário: os incêndios nas matas continuam. De acordo com um comandante da Polícia Militar Ambiental no Pantanal, a maioria provocada por ação humana.

* Donald Malschitzky é escritor

(Foto: Divulgação)

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