Nada sobre nós, sem nós

Por Iraci Seefeldt*

Quando falamos em pessoas com algum tipo de deficiência, nos referimos a quase um quarto da população brasileira. Segundo o Censo Demográfico do IBGE de 2010, são mais de 45 milhões de pessoas que possuem dificuldades em enxergar, ouvir, locomover-se ou que apresentam deficiência mental ou intelectual.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo convivem com alguma forma de deficiência, o que corresponde a cerca de 15% da população mundial, com base em estimativas de 2010. A perspectiva da organização é o aumento desse número, em especial com as dificuldades que podem advir do envelhecimento da população mundial. (*Dados do Ministério da Cultura apresentados durante o curso de Especialização em Acessibilidade Cultural da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ2016.)

No Brasil, com a entrada em vigor do Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146, de 2015) e a implantação de diversas diretrizes de políticas públicas de acessibilidade na área cultural, diversos projetos e ações de inclusão e acessibilidade passaram a ser desenvolvidos, como:

*Obras de acessibilidade física em espaços culturais – públicos e privados;

*Projetos de acessibilidade de conteúdo para pessoas cegas e surdas em exposições, museus e outros espaços expositivos;

*Produção, reprodução e adaptação de acervos artísticos e produtos culturais – livros, filmes, vídeos e programas de televisão em formato acessível para pessoas com deficiência;

*Projetos de formação de plateia ou de práticas artísticas para pessoas com deficiência;

*A gradativa inclusão de alunos com deficiência em escolas e em cursos de formação artística em artes visuais, cinema, dança, fotografia, literatura, música e teatro;

*O uso da Libras e da audiodescrição na produção de espetáculos de dança, teatro, música;

*Ações de acessibilidade física e de conteúdo em eventos culturais.

Todo esse movimento ganhou ainda mais força com a recente obrigatoriedade de ações de acessibilidade em todos os projetos inscritos na Lei Rouanet, transformando o uso das Libras, da Audiodescrição e de muitas outras ferramentas em prática cotidiana de produtores e artistas de todo o país.

Sem dúvida alguma, esse é o melhor cenário já vivenciado no setor cultural do Brasil em toda a sua história. Mas os desafios ainda são muitos, considerando a amplitude geográfica do Brasil e a riqueza e diversidade das manifestações artísticas e culturais do nosso país.

Entre eles está a temática da inclusão também nos processos de criação e produção cultural. Nesse contexto, temos observado o progressivo aumento do número de pessoas com deficiência atuando profissionalmente como artistas ou como professores, pesquisadores, produtores, gestores culturais, entre diversas outras funções técnicas que compõe a cadeia produtiva do setor cultural.

E esse novo cenário tem possibilitado inúmeras descobertas a respeito da possibilidades do fazer artístico, abrangendo desde aspectos de infraestrutura e tecnologia até questões estéticas e psicossociais que envolvem o fazer artístico.

Grupo de Teatro Arte para Todos (Foto: Chico Maurente / Divulgação)

Nesses quase sete anos do Programa de Formação Cultural Arte para Todos, do Instituto de Pesquisa da Arte pelo Movimento (IMPAR), nossa equipe tem vivenciado essas novas possibilidades de processos inclusivos diariamente, dividindo o espaço de criar e fazer arte, lado a lado, com alunos e parceiros de cena e criação artística, cada um de nós sabedores das nossas deficiência, limitações e potencialidade.

Com isso, passamos a experimentar novas práticas, que geram novas sensações e entendimentos, que resultam num fazer artístico pleno, capaz de ser experimentado e vivenciado com qualquer pessoa, independente de sua idade, personalidade, capacidade física ou intelectual ou mesmo de sua experiência artística.

E é isso que nos trouxe ao segundo ano de Seminário e sétimo ano da Mostra Arte para Todos, e ao tema “Nada sobre nós, sem nós!”, numa proposição clara de diálogo e aprendizado mútuo, entre pessoas com e sem deficiência. O Seminário e a Mostra Arte para Todos começou no dia 24 de outubro e segue até sábado, 27 de outubro, no Sesc Joinville e em outros locais da cidade – e ainda dá tempo de participar. Afinal, essa discussão é de todos nós.

* Iraci Seefeldt é diretora do IMPAR e coordenadora do Programa de Formação Cultural Arte para Todos

 

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