O erro certo

Por Maria Cristina Dias*

Quem pretende ser pai ou mãe tem que ter em mente, bem claro, uma coisa: o erro é inevitável. Sim, você vai errar, acostume-se logo com a ideia. Muitas vezes. Pois se há algo previsível e certo na maternidade (ou paternidade, vá lá), é o erro.

Você, caro leitor, que ama aquele serzinho que colocou no mundo e quer vê-lo crescer forte, saudável, descobrindo as suas potencialidades e longe das mazelas do mundo, vai amargar enganos frequentes, a cada dia. E vai se culpar por cada um deles, como se cada bobagem que você faz ou diz para o dito cujo pudesse comprometê-lo ou traumatizá-lo para todo o sempre.

Muitas vezes você vai dormir (ou tentar) pensando se a decisão que tomou foi a mais acertada, se o remédio estava certo, se aquela palavra foi adequada ou vai gerar traumas psicológicos dos quais você não faz ideia, se deveria ter colocado o malcriado de castigo ou se, afinal, não teria nada de mais em deixar ele se afundar na terceira taça de sorvete.

Pior, movido pela incerteza de que tomou a decisão correta e corroído pela culpa que vem junto com a certidão de nascimento (tá, e pelo imenso amor que temos por eles, que nos torna mais moles), vai se tornar permissivo e deixar que façam coisas que você sabe, lá no fundo, que não deveriam.

“Ah, mãe, só mais um pouquinho”, fala a criatura, invariavelmente com um olhar que desmancha o coração mais duro (não o meu, pois este já é uma gelatina, mesmo, não tem mais o que desmanchar).

E as decisões que impactam no futuro? Esta escola mais humanizada ou aquela que foca no conteúdo e já prepara (???) para a vida no feroz mercado de trabalho? Deixar a vida seguir de forma frouxa ou ser mais rígida? Cobrar ou ceder? Deixar ir, empurrar para fora do ninho ou deixar ficar mais um pouquinho – e correr o risco de esse pouquinho se transformar em um “poucão” como vemos hoje? Sem dúvidas, qualquer decisão estaria errada. E, por outro lado, traria algum acerto, embora não totalmente claro, rápido ou direto.

Lembro de uma ocasião em que meu filho adolescente decidiu que iria para a escola de bicicleta. Nada mais natural, afinal, ele não nasceu na “Cidade das Bicicletas”? E a escola ficava relativamente perto… Mas o que fazer com o trânsito intenso na hora do rush, com a travessia pela pista que não tem sinal de trânsito próximo à escola, com os outros motoristas (os de carro) que ignoram as regras mais elementares? A ideia me pareceu ruim, queria acabar com ela. Queria meu filho protegido em casa, dentro do meu carro ou perto de mim ao invés de vê-lo sair por aí exposto a todo tipo de risco pelo caminho. Por outro lado, quem sou eu para cortar as asas dele e impedi-lo de voar, de sair por aí? Logo eu, que fiz isso tantas vezes…

Ou seja, qualquer decisão que eu tomasse conteria a possibilidade de um erro. Tanto o “sim” quanto o “não”. E eu, usando o tempo a meu favor, saí pela tangente. “Vamos com calma”, disse. E tentei ganhar tempo para que ele crescesse um pouco mais.

Não que tenha adiantado muito, é verdade. Um dia estava no trabalho e descobri que ele tinha pego a bike, se virado por conta própria e chegado na escola. De outra vez me contou do susto que levara ao tentar atravessar uma rua e perceber que um carro acelerou, passou já no sinal vermelho ao invés de reduzir ao ver a luz amarela e parar. E, aos poucos, foi ficando menos afoito, um pouquinho mais prudente e percebendo que as ruas não são um videogame e que é preciso ir com calma e o dobro de atenção. Bem, ele tá vivo para contar a história, então algo deu certo no final.

Falar é fácil, escrever é mais fácil ainda. Difícil é conviver diariamente com o medo de não estar fazendo a coisa certa com a pessoa que você mais ama. E, mesmo assim, respirar e seguir em frente tentando acertar um pouquinho e manter a leveza.

 

*Maria Cristina Dias é jornalista

(www.mariacristinadias.com.br)

2 Comentários

  1. Edelvis disse:

    Maria Cristina Dias
    Meus filhos já estão criados e se tem uma coisa certa é o que você comenta em sua crônica!
    Quem dera eles viessem com manual de instruções! rsrs
    Mas não! Nem o que dá certo pra um, muitas vezes não dá para o outro.
    E a culpa!!! Nossa! Que tortura…
    Até que entendemos que cada um é uma individualidade, que somos responsáveis até certo ponto, pois eles têm o direito de fazer as próprias escolhas (mesmo se quebrarem a cara), pois o erro é motivo de crescimento. E que o amor deve falar mais alto, junto com o diálogo e o desenvolvimento do senso crítico!
    Temos que dar as condições e deixar que vão!
    Assim como a pipa… Damos linha e vamos orientando… De longe!
    E é por isso que nós mães e pais fazemos sempre o melhor e damos o melhor de nós por esses seres.
    Muito boa sua crônica!

  2. Ana Cláudia Moraes Moreira Artioli disse:

    A eterna dúvida que nos assombra… A hora do vôo de nossos filhotes! A dúvida, a culpa, o medo e a alegria! Ensinamos a teoria, damos o exemplo , mas a hora do salto é que vem a incerteza e nos questionamos se não pode ficar pra depois!. Nem nos lembramos de quão natural foi conosco, nas nossas primeiras experiências de autonomia, quando ansiávamos com o dia em que poderíamos tomar o ônibus, dormir fora, ir na domingueira… E tudo sem sermos monitorados pelo celular! Agora sabemos exatamente o que nossos pais passaram….

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