Pontos fora da curva

Por Gaudêncio Torquato*

É bom repetir: o pleito deste ano quebrou paradigmas, mostrou que o eleitor sabe votar, castigou quem refugava a ideia de comparecer ao confessionário e, sobretudo, elevou ao alto o conceito da cidadania ativa, que mostra o intenso desejo do cidadão de participar, de modo autônomo, do processo civilizatório. Dito assim, até parece que o eleitor tornou-se, de uma hora para outra, uma pessoa de alto nível cultural, capaz de entender os mecanismos da política. Nada disso.

Os maiores contingentes eleitorais do país continuam a trilhar as veredas da incultura política, sob a amargura de grandes necessidades e o sopro de ídolos que teimam em surfar nas ondas de um populismo enganador. Mas é fato que, mesmo sob a ampla teia de mistificação formada pela propaganda eleitoral, pessoas cultas e incultas se deram as mãos para promover o maior espetáculo cívico de nossa contemporaneidade. Vamos aos “pontos fora da curva” construídos pela vontade popular.

Primeiro, a quebra de paradigmas do marketing das eleições. A propaganda eleitoral, pela via clássica da TV e do rádio, já não elege um candidato. Tornou-se um som no vácuo. Não criou feed-back. Sem receptor, inexiste comunicação, apenas um processo unilateral de transmissão de mensagens. Os marqueteiros terão de reaprender seu ofício. Segundo, a força das redes sociais, não no sentido de puxar votos de um lado para outro, mas na estratégia de animar as militâncias e de usar versões para os fatos. Quem soube usar bem as ferramentas digitais ganhou pontos. Abriu-se, assim, a era da democracia digital, cujo impacto na produção de fake news certamente haverá de exigir controles mais apurados, dada a incapacidade dos nossos Tribunais em coibir as ilegalidades.

Na lista dos fenômenos inusitados, emerge forte mistura de ódio, indignação, revolta, revanche e até vingança, elementos que costumam aparecer em campanhas eleitorais, mas não com o alto teor explosivo como se vê nas ruas e nas redes sociais. Nunca se viu tanta raiva. Que traz em seu bojo a indignação contra a corrupção, a rejeição aos velhos costumes políticos e intensa vontade de punir o petismo. Na verdade, o sentimento antipetista foi subestimado, a denotar que viceja no meio social furor contra a semente do apartheid plantada no território durante todo o percurso do PT.

Outra surpresa foi a perda de força do dinheiro como alavanca eleitoral. Os caciques e dirigentes das maiores siglas, repartindo os recursos partidários entre os agraciados de sempre, principalmente aqueles que se perpetuaram nas máquinas, foram surpreendidos com derrotas. E, assim, tradicionais figuras nos Estados saíram da galeria parlamentar. Um veto dado pelo eleitor de quase todos os rincões do país. Alguns ainda conseguiram sobreviver à pororoca, graças à extensão de seu mando.

O maior ícone da política, Lula, preso em Curitiba, conseguiu segurar bolsões do interior do Nordeste para seu indicado, Fernando Haddad, mas amarga a possibilidade de ver sua votação em campanhas passadas ser inferior à do capitão Bolsonaro. Mesmo assim, o PT conseguiu se posicionar como a primeira bancada da Câmara dos Deputados, de onde espera fazer oposição e voltar a ter sua estrela rodeada pelos entes da extremidade do arco ideológico.

O fato é que a política brasileira sobe degraus na escada civilizatória, significando a autonomia do eleitor, o estiolamento das direções partidárias, a necessidade de os partidos voltarem a vestir mantos ideológicos, maior racionalidade no processo de decisão popular, descoberta do voto como instrumento de mudança política. Inaugura-se, assim, a fase de autogestão eleitoral no país, representando um oceano de distância dos tempos em que os coronéis da Velha República (anos 30) entregavam aos eleitores a cédula eleitoral já preenchida e envelopada.

Os horizontes, como já frisamos mais de uma vez, são sombrios. Uma era de vacas magras nos espera. Não se espere do novo governante o milagre da multiplicação dos pães. As demandas sociais não serão atendidas plenamente. Até porque é incompatível uma política de contenção de gastos – absolutamente indispensável para fazer o país andar – com o populismo redistributivista do primeiro ciclo Lula.

O pleito de 2018 figurará nos anais da nossa história como aquele em que o poder centrípeto, de fora para dentro, mais oxigenou a democracia brasileira.

 


*Gaudêncio Torquato é  jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

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