Quem não se comunica…

Por Roberto Szabunia*

…se trumbica!

Não sei se foi o próprio Chacrinha quem cunhou o bordão, mas a História tratou de imputar-lhe a autoria. Pouco importa, vale a força da frase, que acabou chegando a todo brasileiro, graças à expressão popular, o tal “trumbica”. Nem carece conhecer o seu significado, para deduzir tratar-se de um sinônimo para “se ferrar”.

Aliás, no Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, compilado pela Academia Brasileira de Letras, o verbete nem é citado – pelo menos não na edição que tenho aqui, de 2008. Mas deve haver outros que abram espaço para o verbo, que significa exatamente “dar-se mal”. Há uma versão que remete sua origem a Portugal. Seria uma grafia incorreta do vocábulo “trompicar”, um provincianismo português que significar enganar voluntariamente, tramar, lixar. Usa-se mais na forma reflexiva. Também significa tropeçar, no Algarve e no Alentejo.

Abelardo Barbosa, o Chacrinha criador – consideremos assim – da frase, era um comunicador nato. Nesta sexta-feira, dia 30, faz 29 anos que o “Velho Guerreiro” morreu. E no próximo 30 de setembro comemora-se seu centenário de nascimento, na pernambucana Surubim.

Conheci o personagem antes mesmo que o primeiro televisor entrasse em nosso lar, no distante 1969. E como? Na capa de uma edição da revista InTerValo, uma publicação que circulou de 1963 a 72, misto de guia de programação e reportagens (acho que hoje em dia a revista Contigo é uma bisneta daquela). Sei lá como um exemplar da InTerValo foi parar lá em casa, mas me marcou porque fiquei meses lendo e relendo a mesma revista. Aí, quando enfim o pioneiro Semp entrou lá em casa, eu queria ver tudo que estava na revista. Frustração… A TV Paraná canal 6 não retransmitia o sinal da TV Globo, onde Chacrinha apresentava dois programas, Buzina e Discoteca. Em compensação, assistíamos à Record, onde passavam Família Trapo e Perdidos no Espaço.

Conheci finalmente o personagem quando Rio Negrinho ganhou repetidoras dos canais 4 e 12 de Curitiba. O 4, TV Iguaçu, retransmitia a Globo. Devo admitir que fiquei um tanto decepcionado. Por um lado, Chacrinha era de fato um comunicador competente, tinha o público na mão. Mas os programas eram de uma ruindade entediante. A Discoteca ainda se salvava, pois levava ao palco as principais atrações musicais da época. Mas a Buzina… Calouros horríveis, um júri pândego, Chacrinha azucrinando os candidatos sem dó… Como passava às quartas-feiras, eu preferia ligar o rádio e ouvir algum jogo na Bandeirantes ou na Tupi – e depois assistir ao videoteipe de alguma partida do Campeonato Paranaense. Chacrinha ainda passou por outras emissoras, até retornar à Globo, nos anos 90. E o que era ruim piorou. Aquele Cassino foi um lamentável fim de carreira para o Guerreiro.

Enfim, não discutamos gosto pessoal. Afinal, por onde andou, Chacrinha amealhou fãs aos montes. Talento, sem dúvida, lhe sobrava. Sabia se comunicar o homem, isso preciso admitir.

E deixou seguidores também. É só dar uma zapeada pelos canais abertos, para constatar que a técnica de conquistar o público – na plateia e em casa – continua a mesma. Pessoalmente, não gosto de nenhum. Mas esse “estilo Chacrinha” de se comunicar é infalível. E aí ninguém se trumbica (quem não gosta não assista).

 

*Jornalista

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