Um novo rebento a caminho

Por Donald Malschitzky*

Já são quase seis da tarde de domingo e paro um pouco para descansar de escrever, e o faço escrevendo esta crônica. Há poucos minutos terminei de colocar o penúltimo anexo num livro que preciso entregar amanhã bem cedo para a editora. Deveria ser hoje, mas acho que não trabalham no domingo.

E a cachorra da vizinha resolveu latir entre as duas casas. Deve ser para testar o eco, mas irrita demais. Se já não tivesse escrito as páginas iniciais, dedicaria o livro a ela, afinal, há um ano o fundo musical de minha escrita são seus latidos.

Escrever é prazeroso, mas também estressante, complicado, preocupante. A produção deste livro, a história de uma instituição estadual, foi um exercício de muita descoberta, às vezes de deslumbramento e, principalmente, de montagem de um quebra-cabeças imenso, onde encaixar as peças significava perguntar, ler, perguntar de novo, pesquisar em outras fontes e sempre questionar as informações eram o dia a dia.

Talvez não seja esta a melhor forma de escrever a história de uma instituição, mas é a que melhor funciona para diminuir a quantidade de erros. Por muitos meses, entrevistei dezenas de pessoas que construíram essa história, mas obviamente nem todos lembram de tudo nem sempre com toda a certeza. A partir disso, costurar a colcha de retalhos e ficar atento para qualquer informação que pudesse ter sido resultado de interpretação e, detectada, começar a romaria até ter certeza. Ou não.

Chegando mais perto da data de entrega, a constatação de quanto tempo se investe em cada informação; não foi raro levar mais de uma hora para escrever quatro ou cinco linhas e depois ainda ficar em dúvida e voltar a checar.

Tudo isso tem um lado ótimo: o conhecimento adquirido, as amizades feitas e, logo, o livro ali, na mão da gente. Junto com isso, vêm os elogios – verdadeiros ou não – e, claro, os porquês, as correções e as críticas. Faz parte; se não aceitasse isso, não poderia ser escritor.

Agora, com as costas estouradas, a Cida não aguentando mais minhas perguntas e reações aos problemas no computador, essa máquina de escrever complicada que ela diz que não tem problema, que o problema sou eu, cá estou, olhando no relógio para ver se dará tempo de enviar a crônica para ser publicada amanhã.

Um dia escrevi sobre a louca que me disse: “Não tenho tempo para escrever, eu trabalho”. Ela que me apareça.

*Donald Malschitzky é escritor

(Foto: Divulgação)

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