Um olhar para o outro

Por Maria Cristina Dias*

Ele estava ali, daquele jeito de sempre, aparentemente meio apressado, um tanto desatento, seguindo seu caminho. Dava bom dia, boa tarde, trocava dois dedos de prosa quando esbarrava com os outros e não conseguia desviar. Tudo aparentemente normal, dentro do previsto, vida que segue entre a aurora e o pôr do sol, e adormece na escuridão da noite.

Mas havia muito mais que isso por baixo daquelas águas que pareciam calmas. Os filhos já adultos trouxeram seus problemas para a casa dos pais (a mesma casa da qual haviam saído tempos antes), as contas desandaram, as emoções também. E um dia todos se surpreenderam com uma atitude impensada, descontrolada, desesperada. Não, ele não se matou… mas há muitas outras formas de atentar contra a própria vida, de tentar destruí-la. Há mortes que ocorrem em vida e que arrastamos por anos.

Ela estava ali, com o sorriso acolhedor de sempre e o jeito de formiguinha trabalhadeira que dá conta de tudo o que aparece. Mas nem sempre. De repente comenta que está tomando remédios daqueles fortes que nos fazem dormir quando o sono insiste em fugir e nos deixar ligados na realidade que queremos esquecer. Bateu a depressão, o mal silencioso que virou uma epidemia mundial e aniquila até as almas mais improváveis.

Um e outro… e a vida dando nós sem que ninguém percebesse. E os nós estrangulando as pessoas silenciosamente.

Pode ser o irmão, o vizinho, o colega de trabalho, a vendedora da loja da esquina… não importa. A gente simplesmente anda tão apressado cuidando da própria existência e sobrevivência, ruminado os próprios problemas que não olha para o outro. Não olha, não vê, não sente. E um dia percebe que o outro se foi. E se dá conta que estávamos ali do lado, mas sequer o vimos se perdendo e indo embora.

Nos emocionamos com o drama de quem não conhecemos, mas que vimos na TV ou lemos na internet ou nas redes sociais. Nos revoltamos com as mazelas que afligem as pessoas do outro lado do mundo. Mas estamos nos tornado incapazes de olhar – e ver – o amigo, o vizinho, o parente, às vezes até o próprio parceiro. Estamos nos tornando incapazes de olhar para quem está do nosso lado – figuradamente ou não.

Cada vez mais divulgamos mensagens bonitas, que pregam amor, amizade e fraternidade. Cada vez mais sonhamos com um mundo melhor, mais humano (seja lá isso o que for), mais leve, mais feliz. Cada vez mais consumimos conteúdos de autoajuda e frases motivadoras. Tudo bem, tudo certo, tudo bonito. Mas ao mesmo tempo nos isolamos em nosso mundinho, cuidamos da própria vida e, com a desculpa de que não temos tempo, nos descuidamos de quem está perto.

Em um mundo cada vez mais cheio de ruídos e distrações, ouvir, olhar, tocar, perceber quem está próximo é tão difícil quanto necessário. Mas será que ainda somos capazes disso?

* Maria Cristina Dias é jornalista e escritora, membro da Academia Joinvilense de Letras

www.mariacristinadias.com.br

(Foto: Divulgação)

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